A exemplo de Brizola, Paes enfrenta com coragem e altivez blackmail da máfia dos ônibus

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RICARDO BRUNO

Os empresários de ônibus do Rio tem uma sombria trajetória no submundo das negociatas com o poder público; historicamente, operam no pantanoso terreno da troca de favores indecorosa, da barganha inconfessável, pactuada em conversas promíscuas nos subterrâneos do poder. Desenvolveram-se economicamente neste lodaçal; alimentando-se de vantagens indevidas, através do pagamento de mesadas a políticos corruptos.  Especializaram-se no tema, assumindo o papel de exímios corruptores.

Uma rápida checagem no google é suficiente para desnudar o modus operandi dessa gente. Na operação  Ponto Final 2,  há um extrato resumido da forma como tratavam seus negócios. De acordo com a sentença, os  empresários de ônibus José Carlos Lavouras, Jacob Barata Filho, João Augusto Monteiro e Marcelo Traça, além de Lélis Teixeira, então presidente da Fetranspor, pagaram R$ 43 milhões em propina a Rogério Onofre, então presidente do Departamento de Transportes Rodoviários (Detro), entre 2010 e 2016, para beneficiar as empresas de ônibus. Todos foram inicialmente condenados.

Há muitos outros casos cabeludos envolvendo o setor – hoje moralmente desacreditado e economicamente falido. São tantas as acusações acerca dos empresários de ônibus no Rio que a palavra Fetranspor, entidade que congrega as principais empresas, passou a ser associada à corrupção. No senso comum de cariocas e fluminenses, a palavra ganhou uma tradução pejorativa. Ir a uma reunião na Fetranspor, por exemplo, passou a ser tido como um ato temário, de interesse no mínimo suspeito.

A decisão de promover locaute no sistema BRT é mais um ato condenável da máfia que capturou o transporte público no Rio. Se há desequilíbrio econômico-financeiro na operação, que seja discutido à luz do dia, com a abertura de planilhas de custos em debate público com a prefeitura, com a participação do Ministério Público, e de representantes dos passageiros.

Acostumados ao convívio inescrupuloso, promíscuo, não optaram por esse caminho. Apostaram  no caos, na suposição de que iam fazer o prefeito da cidade refém das jogadas cavernosas que estão habituados a propor. Sempre à sorrelfa, longe da luz, distante da transparência e próximo da corrupção.

Não conseguiram.  Eduardo Paes encampou o sistema BRT, diante da apatia criminosa dos empresários mesmo com o agravamento da situação. Negaram-se a equacionar solução em conjunto com o poder público na confiança de que seriam inevitavelmente vencedores da queda de braço por deterem o monopólio operacional do setor.

Se o impasse persistir, não será surpresa se todas as linhas da cidade forem encampadas. Não é este o desejo do prefeito. Político de centro, é ardoroso defensor da participação da inciativa privada na operação. Há um convencimento ideológico neste sentido. Tanto que fará nova licitação. Mas se houver desinteresse no certame em decorrência da orquestração de um boicote, está preparado para tarefa. Não capitulará diante de outra chantagem.

Para regozijo dos cariocas, Paes, a exemplo do que fizera Leonel Brizola, está disposto a enfrentar a situação com coragem e altivez, não se submetendo ao blackmail de empresários perniciosos que operam à semelhança das máfias.