Análise da Folha sobre pesquisa diz que tempo para recuperação de Bolsonaro está ficando curto

Presidente segura eleitor fiel, mas economia encolhe janela de recuperação

Última atualização:

A Folha de São Paulo publica nesta quinta-feira (23) uma análise da pesquisa do instituto Datafolha divulgada há pouco, assinada por Bruno Boghossian.

Eis o texto:

“Se os números da nova pesquisa do Datafolha mostram que não houve mudança significativa na corrida desde maio, é possível dizer que Jair Bolsonaro (PL) perdeu quatro semanas. A desvantagem mantida em relação a Lula (PT) encolhe a janela de recuperação do presidente rumo à reeleição.

A estabilidade não ajuda o presidente, mas a resiliência diante de uma onda de más notícias mostra que ele ainda tem ativos eleitorais para a disputa.

Apesar do cenário econômico adverso e do crescimento travado no numeroso grupo de brasileiros mais pobres, Bolsonaro segurou eleitores fiéis e ganhou terreno em alguns segmentos. Desde o fim do ano passado, subiu mais de dez pontos percentuais em faixas de renda mais alta do eleitorado.

O retrato oferecido pela pesquisa sugere que, ao menos em alguns grupos, o presidente consegue driblar o mal-estar com o aumento de preços. Hipóteses para o comportamento desses eleitores são o impacto variado da inflação sobre diferentes faixas de renda e alguma dose de antipetismo.

Lula continua com um favoritismo incontestável, mantendo-se acima do patamar de 50% dos votos válidos que podem garantir uma vitória no primeiro turno —ainda que seja cedo para apontar essa possibilidade.

A chance, no entanto, pode ter feito sua vantagem recuar justamente em segmentos que manifestaram rejeição ao PT e impulsionaram Bolsonaro na última eleição presidencial.

Além do crescimento entre os mais ricos, Bolsonaro reduziu a vantagem de Lula na região Sul de 17 para 7 pontos percentuais no último mês. Entre os homens, a diferença caiu de 15 para 8 pontos.

Essas variações não são suficientes para mudar o jogo, uma vez que Bolsonaro ainda sofre uma derrota por 56% a 20% para Lula no primeiro turno entre os brasileiros com renda de até dois salários mínimos —que são mais da metade do eleitorado.

Bolsonaro espera contar com a máquina pública para reverter esse quadro nos próximos 100 dias, ainda que tenham fracassado as últimas investidas para amenizar os prejuízos políticos causados pela economia.

Criado na virada de 2021 para 2022, o Auxílio Brasil de R$ 400 foi parcialmente corroído pela inflação e não rendeu dividendos eleitorais ao presidente. Entre os beneficiários do programa, Bolsonaro ainda perde para Lula no primeiro turno, por 59% a 20%.

Ainda assim, o desempenho geral de Bolsonaro pode ser explicado pela fidelidade que alguns segmentos têm demonstrado ao presidente mesmo em momentos de adversidade.

As atitudes dos brasileiros mais ricos diante dos tropeços da economia entram nessa conta. Quanto maior a renda, menor é o peso da inflação de itens básicos, como alimentos e transportes –e maiores são o apoio ao presidente e a rejeição a Lula.

As fatias mais altas da pirâmide de renda deram impulso inicial à candidatura de Bolsonaro em 2018, mas tiveram sua relação abalada com o governo no início da pandemia e na demissão de Sergio Moro.

O presidente recuperou terreno entre esses eleitores e se beneficiou da ausência de outros candidatos competitivos na disputa.

Desde dezembro, Bolsonaro desenhou uma trajetória de crescimento significativo na faixa de renda superior a cinco salários mínimos, que corresponde a pouco mais de um décimo do eleitorado.

No fim do ano passado, 31% desses eleitores declaravam voto em Bolsonaro de forma espontânea –antes de ver uma cartela com os nomes dos candidatos. Esse índice subiu para 35% em maio e bateu 42% na nova pesquisa.

Além disso, o presidente busca driblar o mal-estar de alguns grupos com a economia. É o caso do eleitorado evangélico, que recebe acenos frequentes em outros temas para se manter ao lado de Bolsonaro.

O presidente transformou em rotina a participação em versões da Marcha para Jesus espalhadas pelo país e vinculou com maior ênfase o PT a um programa de flexibilização do aborto e do uso de drogas.

O apelo ajuda Bolsonaro a alcançar alguns de seus melhores números entre os evangélicos. Na simulação de primeiro turno, o presidente aparece com 40% das intenções de voto nesse grupo, contra 35% de Lula –um empate técnico, considerando a margem de erro.

Apesar do alívio, Bolsonaro continua muito distante do amplo favoritismo que teve entre os evangélicos na última campanha. São eleitores que pagam a conta do supermercado e precisam encher o tanque do carro de tempos em tempos.

A manutenção dos índices de Bolsonaro reduz ainda mais o tempo dos candidatos que sonham em conquistar votos nas raias da corrida posicionadas à direita, a chamada “terceira via”.

Além de ter conquistado territórios em que se concentra esse eleitorado potencial (Sul e os mais ricos), o presidente também consolidou seus votos um pouco mais. Desde maio, o percentual de entrevistados que citam o nome de Bolsonaro de forma espontânea no início da pesquisa subiu de 22% para 25%.

O novo levantamento também repete os sinais de que uma larga faixa está disposta a votar em Lula para derrotar o presidente e vice-versa.

Entre os eleitores que se recusam a votar em Bolsonaro, 73% declaram voto no petista já no primeiro turno. No sentido inverso, o cenário é o mesmo: 70% dos entrevistados que rejeitam Lula dizem votar no atual presidente.

É cedo para dizer se o cenário eleitoral sentirá o impacto das suspeitas de corrupção no Ministério da Educação.

Embora os pesquisadores do Datafolha tenham ido a campo na quarta-feira (22), dia da prisão do ex-ministro Milton Ribeiro, a reação do eleitor a escândalos costuma variar à medida que os fatos decantam, as investigações se desdobram e os políticos ajustam o discurso.

Mesmo no terreno das especulações, vale lembrar que as revelações da CPI da Covid e acusações de propina na compra de vacinas não abalaram de maneira significativa as intenções de voto em Bolsonaro. Mesmo que o eleitor se veja frustrado, uma boa parcela mantém a fidelidade ao presidente num cenário com poucos nomes alternativos”.