As mulheres poderão derrotar Bolsonaro

Os radares femininos já captaram a total falta de empatia e de solidariedade do presidente com as tragédias coletivas e individuais, como os recentes casos das chuvas em Pernambuco e de Genivaldo. Inexiste instrumento ótico ou sensibilidade que possibilite vislumbrar o mínimo de humanidade em Bolsonaro", escreve o jornalista Hudson Carvalho.

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HUDSON CARVALHO*

Apartidário e sem obrigação profissional, há anos deixei de me motivar pelas etapas preambulares das jornadas eleitorais, que mobilizam os políticos, os militantes, as mídias, os cientistas sociais, os diletantes, os treteiros e os nefelibatas. Comumente, o simulado nessas fases não se estabelece. Agora, por exemplo, quase uma dezena de “presidenciáveis” – alguns vistos como salvação da pátria – caiu do caminhão e ficou na estrada. Não perco tempo, sobretudo, com os outsiders e as compotas da moralidade incensados pela burguesia iluminista – os joaquins barbosas, os bernardinhos, os lucianos hucks e os moros da vida -, a despeito de reconhecer méritos pessoais e ocupacionais. No cotidiano, a atividade política é barra pesadíssima, suja e decepcionante, e os “turistas” inconspurcados acabam desistindo de seus devaneios narcísicos ou são tapeados pelos políticos experientes e astuciosos – vide Sergio Moro -, que têm horror da arrogância e da aura de superioridade moral dessa espécie de normalista. O meu moderado interesse fica circunscrito aos poucos dias oficiais das campanhas eleitorais, quando os candidatos, sagrados em convenções, afirmam-se como realidade, e não mais como meras especulações. Para os desfechos das contendas, as coisas relevantes dão-se, preponderantemente, nos cursos eleitorais propriamente ditos, e não nas ondas espumosas preliminares. Evidentemente, governantes e ex-governantes já entram parcialmente precificados.

Recentemente, enquete do Datafolha avivou as esperanças daqueles que, como eu, desejam, primordialmente, se livrar de Bolsonaro, com Lula abrindo 21 pontos de vantagem sobre o presidente e ensejando a possibilidade de vencer no primeiro turno. Urge ter cautela com as pesquisas. Em período análogo, levantamento da CNN/Real Time Big Data registrou a dianteira de Lula por “somente” oito pontos (40% a 32%). É óbvio que, pelo menos, uma das duas aferições está totalmente errada, se não ambas. Não existe margem de erro que aproxime 21% de 8%. As pesquisas assumiram papel desproporcional nas eleições brasileiras, transformando-se, praticamente, nos próprios processos e “esquizofrenizando” avaliações e humores. Infelizmente, muitos se deixam influenciar por prospecções bêbadas de instituições sem histórico e sem expertise. Semanalmente pululam jorros numéricos de entidades sem tradição, que se firmam como efêmeras verdades. Creio na ciência das estatísticas, mas a relativizo. E mais: a experiência mundial tem ensinado que as dinâmicas contemporâneas indutoras de votos – redes sociais, destacadamente – dificultam aferimentos irretocáveis nas adjacências eleitorais. Há cerca de dois meses, vi estudo sobre a performance de uns 20 institutos nas últimas eleições americanas. Uma grande parcela errou por mais 5%. E lá, a rigor, só dois postulantes disputam o pleito. Em Portugal e na França, aconteceram equívocos gritantes nos respectivos primeiros turnos. Agora, na Colômbia, o candidato que todos os institutos apontavam – um com 10% de diferença – como segundo lugar na véspera do escrutínio, não avançou. Às vezes, dá até para sacramentar o placê, todavia não a exatidão das percentagens. Sumarizando: as pesquisas servem para balizar os percursos eleitorais, entretanto estão com dificuldades crescentes de se casarem com a fidelidade das urnas.

De modo geral, as pesquisas identificam alguns subgrupos, constantemente, hostis a Bolsonaro e/ou simpáticos a Lula – mulheres, nordestinos, jovens, mais pobres e menos instruídos. Pelo perfil, tudo indica que o grau de superposição é altíssimo. A pesquisada pode ser, cumulativamente, mulher, nordestina, jovem, pobre e carente de educação formal. Acho que, por diversas razões, as mulheres compõem o segmento mais impermeável a Bolsonaro; inobstante preferirem Lula ou outro.

Na cantada e decantada Democracia Ateniense, gestada por Clístenes, em 510 a.C., as mulheres, nascidas em Atenas, eram consideradas cidadãs, no entanto não gozavam de garantias políticas. As gregas puderam votar apenas em 1952 d.C. A primeira nação a adotar o sufrágio feminino foi a Nova Zelândia, em 1893, secundada pela Austrália, em 1902. De 1906 a 1918, todos os países nórdicos – Finlândia, Noruega, Dinamarca, Islândia e Suécia – incorporaram o voto feminino.  Inglaterra e Alemanha igualmente aderiram em 1918, finda a Primeira Guerra Mundial. Dois anos depois, as mulheres americanas adquiriram o direito ao voto. E as francesas e italianas após a Segunda Guerra Mundial, em 1945. Na maioria dos casos, havia contingenciamentos. Na Inglaterra, a permissão contemplava, inicialmente, mulheres com mais de 30 anos. E as negras americanas equipararam-se às brancas tão somente em 1964, pela Lei dos Direitos Civis.

No Brasil, as discussões em torno no voto feminino começaram, timidamente, na Constituição de 1891, que tentou retratar a passagem, dois anos antes, do sistema monárquico para o republicano. Por entendimento tácito, a Constituição não precisou especificar restrições ao sufrágio feminino em seus 99 artigos (oito deles provisórios), como fazia em relação aos mendigos, analfabetos, militares de baixas patentes e religiosos com votos de obediência.  Sintetizando o espírito dos políticos da época, o deputado constituinte e pintor Pedro Américo, autor do icônico quadro “Independência ou Morte!” – também conhecido como “O Grito do Ipiranga” -, observou: “A mulher normal e típica não é a que vai ao foro, à praça pública nem às assembleias políticas defender os direitos da coletividade, mas a que fica no lar doméstico exercendo as virtudes feminis, base da tranquilidade da família, e, por consequência, da felicidade social”. 

Em 1927, o insurgente Estado do Rio Grande no Norte aprovara lei franqueando o voto às mulheres, aproveitando-se da imprecisão da Constituição de 1891, que não explicitava o tema. Com isso, a professora Celina Guimarães Viana, de Mossoró, figurou-se na primeira mulher brasileira a se alistar para votar. Outras pouquíssimas mulheres a seguiram, contudo o voto delas acabou anulado por instâncias do Senado, que não reconheceram a autonomia eleitoral do Rio Grande no Norte. Os potiguares, no entanto, mantiveram-se pioneiros. Em 1928, apoiada pelo governador Juvenal Lamartine de Faria, Alzira Soreano elegeu-se prefeita (a primeira do Brasil e da América Latina) de Lages, com mais de 60% dos votos. O fato inusitado acabou nas páginas do New York Times, em 8 de setembro daquele ano. Ainda em 1928, brechas na Constituição de 1891 animaram a advogada, escritora e poeta mineira Mietta Santiago a entrar com um mandado de segurança, que lhe permitiu votar e ser candidata à deputada federal.  Ela não se elegeu, porém inspirou o conterrâneo Carlos Drummond de Andrade a poetizar “Mulher Eleitora”, que reúne as seguintes versos finais: “Mulher votando?/ Mulher, quem sabe, Chefe da Nação?/ O escândalo abala a Mantiqueira, faz tremerem os trilhos da Central/ e acende no Bairro dos Funcionários,/ melhor: na cidade inteira funcionária,/ a suspeita de que Minas endoidece,/ já endoideceu: o mundo acaba”. Em 1932, juntamente com a instalação da Justiça Eleitoral, o voto feminino foi adotado no país, consagrando os esforços de batalhadoras como Bertha Lutz e Leolinda Daltro, criadoras, respectivamente, da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino e do Partido Republicano Feminino (aqui, a palavra “Partido” refletia apenas uma veleidade). Os detratores de Deolinda chamavam-na de “a mulher do diabo”.

Excetuando aquelas que se guiam por desambiguizado antilulopetismo, espantalhos da Guerra Fria e DNA conservador/reacionário (religiosa ou não), torna-se labiríntico desfolhar pretextos para que as mulheres benqueiram a Bolsonaro. Os próprios motivos predominantes das que pretendem votar em Bolsonaro apresentam-se mais periféricos do que centrados nas virtudes dele. Como criatura física e jurídica, Bolsonaro exibe-se abominável perante a maioria dos olhares femininos. Com PhD em machismo e misoginia, Jair Bolsonaro coleciona episódios de agressões e ofensas às mulheres. Já em 27 de agosto de 1998, o Jornal do Brasil registrava que, em campanha para deputado federal, Bolsonaro esmurrou, por trás, a cabeça de Conceição Aparecida, que se desentendeu com uma apoiadora dele. Em 2003, protagonizou diatribe com a deputada petista Maria do Rosário, em que ele, numa discussão sobre violência contra mulheres, asseverou: “Não vou estuprar você porque você não merece”. Em entrevista sobre a querela ao jornal Zero Hora, Bolsonaro emendou: “Ela não merece porque ela é muito ruim, porque ela é muito feia, não faz o meu gênero, jamais a estupraria”.  Onze anos depois, os dois voltaram a pugilar sobre a questão no plenário da Câmara dos Deputados. Em março de 2011, no extinto programa televisivo CQC, ao responder pergunta de Preta Gil sobre como se comportaria se um filho dele se apaixonasse por uma negra, Bolsonaro retrucou: “Ô, Preta, eu não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Eu não corro esse risco. E meus filhos foram muito bem-educados e não viveram em um ambiente como, lamentavelmente, é o teu”. Em julho de 2011, a Folha de S. Paulo e o Correio Braziliense noticiaram que o Itamaraty apreciava nebulosa denúncia da ex-mulher do presidente Ana Cristina Valle, mãe de Renan, de ameaça de morte por parte de Bolsonaro e uma sondagem de asilo na Noruega. Ana Cristina viajara àquele país, levando o filho, então, menor, sem autorização do pai. Em dezembro de 2014, em matéria no jornal Zero Hora, Bolsonaro disse que achava justo os homens ganharem mais do que as mulheres para executar trabalho idêntico, sob a alegação de que elas ficam grávidas e tiram licença maternidade. Em abril de 2017, em palestra no Clube Hebraica, justificou a presença da filha Laura no meio do seu clã de quatro varões como uma “fraquejada”. Em 8 de março de 2019, no Dia Internacional da Mulher, Bolsonaro falou sobre a participação feminina no seu ministério: “Pela primeira vez na vida, o número de ministros e ministras está equilibrado em nosso governo. Temos 22 ministérios, 20 homens e duas mulheres”. Em abril de 2019, ao condenar o turismo gay, o presidente estimulou: “Quem quiser vir aqui fazer sexo com uma mulher, fique à vontade”. O curralzinho do Palácio da Alvorada, onde o presidente performa para sandeus, testemunhou vários assaltos contra as jornalistas. Em fevereiro de 2020, ao ser questionado sobre possíveis irregularidades na sua campanha eleitoral pela repórter Patrícia Campos Mello, o presidente explicou para a mamparra: “Ela queria um furo. Ela queria dar o furo”. O “Mito” é um doente.

Pode-se admitir que as contumazes práticas delinquentes do presidente só cheguem a porções minoritárias de mulheres informadas, não sendo de conhecimento largo do contingente feminino. No mais, é justamente a “natureza” sórdida de Bolsonaro que o sintoniza com expressivos segmentos do universo masculino. O desgoverno dele, porém, revela-se arrasador, notadamente, para as mulheres empobrecidas, vítimas primordiais dos desarranjos de qualquer administração. São elas as principais interfaces com os serviços públicos, como usuárias e acompanhantes de filhos e da parentela. O criminoso descaso do presidente com a pandemia da Covid é indisfarçável; não há maquiagem que o remedeie. Os radares femininos já captaram a total falta de empatia e de solidariedade do presidente com as tragédias coletivas e individuais, como os recentes casos das chuvas em Pernambuco e de Genivaldo. Inexiste instrumento ótico ou sensibilidade que possibilite vislumbrar o mínimo de humanidade em Bolsonaro. A idolatria armamentista de Bolsonaro também não encontra amparo entre as mulheres. Que tipo de mãe gosta de ver alguém segurar uma criança e fazer arminha com os dedinhos? Nas comunidades carentes, as mulheres conhecem bem a opressão armada de meliantes e de policiais, e muitas se dilaceram com a perda dos filhos para a bandidagem. No ambiente feminino, arma é sempre extensão de dores marmorizadas. As mulheres são as que mais sofrem com a falta de perspectiva educacional e laboral da geração nem-nem. E a administração Bolsonaro não acena com nenhuma esperança; até porque divisa os adolescentes como inimigos. Ademais, as jovens carentes urbanas, as mocinhas de comunidades, miram-se em exemplos de mulheres que superaram as suas calamitosas sinas e que pontificam nos campos artísticos, esportivos e midiáticos. Mesmo sem a consciência feminista clássica, elas incorporam um quê de emponderamento, que se choca com personagens como Bolsonaro. Por fim, as mulheres desvalidas, para as quais destina-se, prioritariamente, a quase totalidade dos programas governamentais assistencialistas, não imaginam que perderão os ganhos em eventual governo Lula. Não é à toa que Lula soma o triplo de intenção de votos de Bolsonaro entre os beneficiários do Auxílio Brasil, segundo o Datafolha.

Grosso modo, de acordo com a média das pesquisas, Bolsonaro tem 50% a mais de homens do que de mulheres entre os seus admiradores. E o dobro da rejeição de Lula entre elas. Já na campanha de 2018, foram as mulheres que puxaram o “Ele Não”. No Brasil, alojados nas metrópoles, os movimentos feministas orgânicos ainda são débeis eleitoralmente e expressam, majoritariamente, os anseios de uma elite cosmopolita e intelectualizada. Ao que tudo indica, no momento, a maior ameaça à reeleição de Bolsonaro é a “mulher normal e típica”, nos conceitos de Pedro Américo. Que ela faça jus à predição de Cecília Meireles: “A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba o seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la”.   

*Hudson Carvalho é jornalista e consultor politico