Bolsonaro repete políticas de massacre indígena da ditadura, acusa Frei Betto

Teólogo lança romance e afirma que grupos religiosos seguem trabalhando em favor da exploração capitalista na Amazônia

Frei Betto
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Ópera Mundi – O teólogo, filósofo e educador Frei Betto falou no programa 20 MINUTOS desta quinta-feira (04/08) sobre o livro Tom Vermelho do Verde (editora Rocco), um romance histórico que retoma o extermínio de cerca de 3.000 indígenas da etnia Waimiri Atroari durante a construção da BR-174, ou Rodovia Manaus-Boa Vista, entre o final dos anos 1960 e o início dos 1970. 

Ele afirmou, em conversa com o jornalista Breno Altman, que o governo Jair Bolsonaro dá continuidade às políticas de aniquilamento indígena adotadas pela ditadura militar. 

“A ditadura considerava que os indígenas são um estorvo para o desenvolvimento da Amazônia em sua concepção capitalista, baseada na exploração mineral, no garimpo, no agronegócio, na exportação ilegal de madeiras nobres. Infelizmente, essa é a política que predomina no atual governo brasileiro”, lamenta o teólogo.

Em meio ao ecocídio acelerado nos últimos quatro anos, os Waimiri Atroari seguem sob ameaça nos dias atuais, seja pela mineração ou por um projeto de integração do estado de Roraima ao sistema elétrico nacional. “Hoje estão praticamente confinados na sua área por força de um consórcio formado pela Eletronorte com a Mineração Taboca, da empresa Paranapanema, que explora minerais preciosos, além de outras coisas que devem também explorar”, diz

O caso abordado em Tom Vermelho do Verde é um entre muitos. Os Waimiri Atroari foram vitimados particularmente porque ofereceram forte resistência ao avanço dos militares. 

O projeto capitalista de colonização da Amazônia, tratada pelo regime como se fosse despovoada, considerou a população indígena economicamente improdutiva e um entrave para o progresso do “Brasil grande”. Grupos religiosos foram instrumentalizados como pontas-de-lança de grandes empresas colonizadoras, sob o pretexto de atuar como evangelizadores. 

Esse modelo vigora na região até o presente, segundo o filósofo: “pastores de origem norte-americana ainda hoje operam na Amazônia em função de exploração, para, entre aspas, domesticar os povos indígenas para que não apresentem resistência à entrada de empresas mineradoras, madeireiras e coletoras de espécies raras de animais, flores e frutos”.

Na opinião de Frei Betto, a Igreja Católica tem feito uma autocrítica sobre sua atuação no processo histórico de colonização, sobretudo por intermédio do Papa Francisco. “Ele acaba de pedir perdão aos indígenas no Canadá pela ação colonizadora da Europa no nosso continente e pelas aberrações que foram cometidas em nome de Deus contra suas crianças, que foram retiradas de suas aldeias, abusadas e trabalharam em regime de escravidão”, lembra. 

O Conselho Indigenista Missionário (Cimi), criado com participação das igrejas católica e protestante, é para ele a instituição que mais confronta a atual Fundação Nacional do Índio (Funai), que ele chama de “Funerária Nacional do Índio”. 

O religioso diz que mesmo acontece em relação à diversidade de etidades em atividade na Amazônia: “Há ONGs que lutam a favor dos povos originários e ONGs conspiradoras, que são meras testas-de-ferro das empresas colonizadoras”. 

Frei Betto alerta que o descaso com os povos originários não é assunto apenas de projetos ditatoriais ou autoritários de poder, mas se estende a governos progressistas e ao comportamento geral da sociedade. “No Brasil nunca houve uma preocupação efetiva ou intelectual da esquerda com a questão indígena”, particulariza. 

O especialista refere-se ao genocídio das nações indígenas na chegada dos europeus à América como “o maior holocausto que se conhece na história humana”: “70 milhões de indígenas teriam sido trucidados em apenas dois séculos. Calcula-se que o Brasil tinha 5 milhões de indígenas quando Cabral chegou, e hoje temos pouco menos de 1 milhão”. Ainda assim o religioso menciona o crescimento recente da população indígena no Brasil, motivado por um resgate progressivo da autoestima desses povos.