“Não existe a História da televisão brasileira sem Jô Soares”, diz Patrícia Kogut; “era maior que qualquer roteiro. Um gigante!”

Capaz de puxar um espetáculo do bolso no deserto', escreve a colunista

Jô na foto da coluna de Kogut
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A colunista de televisão de O Globo, Patrícia Kogut, homenageou com uma coluna emocionada a história do humorista Jô Soares, nesta sexta-feira (5). Patrícia diz que a “história da televisão brasileira não existe sem Jô Soares”.

Leiam a coluna:

“Em 2014, Jô Soares foi internado por três semanas e, com isso, passou um mês e meio afastado da TV. A notícia de que teria morrido circulou. Bem-humorado, ele me deu uma entrevista em que se divertiu: “Me tiraram do bico do urubu”, disse. O urubu, no caso, foi uma pneumonia que resultou numa septicemia. O episódio expressa esse dom que ele tinha de mergulhar emergindo do outro lado da arrebentação com charme, fazendo alguma graça. A expressão o “bico do urubu” também refletia seu estilo: era ao mesmo tempo uma expressão popular e um achado de quem conhecia o melhor frasismo. Seu repertório abraçava tudo.

Com sua morte, o mundo piora muito.

Todos os clichês usados para definir Jô são verdadeiros. Homem renascentista, gênio do humor, inigualável. Além da verve natural, ele teve uma formação sólida e cosmopolita, era poliglota e viajado, carioca, paulista e do mundo. Em seu “O livro do Jô”, dois volumes em que trabalhou com Matinas Suzuki Jr., conta vários “causos” da malandragem de Copacabana. Um sinal de que se divertia muito também, sempre enxergando um lado leve e cômico no comportamento humano.

Não existe a História da televisão brasileira sem Jô. Ele esteve nos primórdios, na “Praça da Alegria”, ainda na TV Record, em 1956. Lá também participou de “A Família Trapo”. Em 1971, se transferiu para a Globo onde lançou uma galeria de personagens e bordões que até hoje estão na boca do povo. Eram tipos que espelhavam o espírito do tempo. O exilado politico Sebá, codinome Pierre, que ligava de Paris para a mulher no Brasil e diante dos relatos dela do que acontecia por aqui exclamava: “Chose de loc!”, “Madalena, você não quer que eu volte”; Gardelon, o argentino que repetia: “Muy amigo!”; O general que não se conformava com o fim da ditadura e pedia: “Me tira o tubo”; Bô Francineide, com sua mãe minúscula, a atriz Henriqueta Brieba, a quem se dirigia com a frase: “E pensar que saí de dentro dela!”.

Depois de conquistar todos os territórios no humor, em vez de se acomodar no sucesso, Jô quis mais. Justo: ele sempre foi capaz de muito mais. E propôs à Globo fazer um programa de entrevistas. Boni não topou, e ele se transferiu para o SBT. Carregou um público numeroso para o seu “Jô Soares onze e meia”. Qualificou a faixa da madrugada, recebeu o Brasil todo – famosos e anônimos com algo a contar – em seu sofá. Quando a entrevista não rendia pelo convidado, compensava tudo improvisando um show próprio. Era maior do que qualquer roteiro, capaz de puxar um espetáculo do bolso no deserto. Era a personificação do talento. Em 2000, voltou para a Globo, onde fez o “Programa do Jô” até 2016.

Estava sempre com algum projeto, uma peça, um livro, um sonho. Era querido pelos amigos e amado pelo Brasil. Jô Soares, um gigante.”