A eleição presidencial em 2022, a disrupção digital e a vida “figital” irreversível.

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Por Paulo Baía*

A sucessão presidencial em outubro de 2022 está sendo jogada desde o início de 2021. Na verdade, com o estabelecimento do instituto da reeleição por Fernando Henrique Cardoso, passamos a ter esta característica: uma campanha de reeleição do presidente, do governador e do prefeito eleito começa no dia primeiro de janeiro, desvirtuando o instituto da reeleição no Brasil. Ou seja, temos que acompanhar a performance eleitoral do presidente em exercício não apenas no seu desempenho como governante, mas também já como um pré-candidato a sua reeleição.

No cenário que temos hoje, no final de outubro de 2021, existem três candidatos à presidência irreversíveis, cujos perfis de aceitação e de rejeição definidos pelas fotografias do momento nas várias e múltiplas pesquisas que têm sido publicada por institutos tradicionais e por novos de pesquisa eleitoral e de opinião. Temos: Luiz Inácio Lula da Silva pontuando à frente, bem à frente, seguido por Jair Bolsonaro, que tem uma boa e fidelizada pontuação, e Ciro Gomes, que vem em terceiro lugar oscilando entre oito e dez por cento dos votos. Os três têm níveis de rejeição diferenciada, mas consideráveis. Lula possui um favoritismo momentâneo. Mas eleição possui vários fatores, variáveis, que influenciam, definindo a sua dinâmica e os resultados. Uma eleição nunca é definida pelas pesquisas eleitorais, mesmo pela da noite anterior ao dia do pleito. Elas têm um papel importante e insubstituível, alimentar as estratégias das campanhas eleitorais. As pesquisas quantitativas e, em especial, as qualitativas que estão sendo feitas em profusão e com qualidade no Brasil indicam, orientam os estrategistas das campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva, de Jair Bolsonaro e de Ciro Gomes a estimularem o aborto de novas pré-canditaduras, como se o cenário do pleito de outubro de 2022 já estivesse afunilando nos três nomes citados.

A dinâmica das campanhas eleitorais, em eleições de dois turnos, não permite este tipo de artifício político contra Lula e/ou contra Jair Bolsonaro, com um acordo prévio de desistências dos projetos partidários existentes no tempo presente de suas campanhas eleitorais. O que define a tendência de uma eleição é o humor, o afeto, as carências dos eleitores, são aqueles movimentos que fazem com que a campanha eleitoral, como peça publicitária, mexa na emoção do ser humano, na racionalidade do eleitor. A campanha possui sequências, etapas novas, improvisos, recomeços, a partir do impacto das campanhas eleitorais. Estes são feitos pelas rádios, televisão, jornais, sites, blogs, face-a-face nos vários municípios, vilas e cidades pelos vereadores, deputados estaduais, prefeitos, pelos velhos cabos eleitorais, lideranças comunitárias e religiosas. São feitos também pela presença dos vários candidatos nessas localidades, com presença física ou via mídias tradicionais, as quais são reforçadas pelas mídias digitais e pelas redes sociais, comunicação rápida, instantânea, consagrada a partir da primeira campanha vitoriosa de Barack Obama nos EUA. Temos um papel surpreendente de importância das rádio FMs, das televisões fechadas e abertas, temos a importância da presença face a face via militância, cabos eleitorais profissionais, vereadores, deputados estaduais, deputados federais, senadores, governadores, os próprios pré-candidatos à presidência da república, as mídias digitais e as redes sociais.
Todas as mídias chegam em tempo real, de maneira instantânea nos smartphones das pessoas.
Chamo atenção, como destaque analítico, que todos os candidatos competitivos têm uma estrutura semelhante de uso das redes sociais. Não é fato que em 2018 somente Jair Bolsonaro usou as redes sociais. Geraldo Alkmin, Henrique Meirelles, Marina Silva, Ciro Gomes, Álvaro Dias também usaram com intensidade e profissionalismo. O que aconteceu em 2018 foi que o conteúdo, a retórica, a estética e as falas de Jair Bolsonaro nas redes sociais foram mais convincentes, emocionaram mais os eleitores, se sintonizaram com a “alma da maioria da população” de forma passional. Tenho a absoluta certeza, isso é uma afirmação que faço neste artigo, que a estrutura de redes sociais de Geraldo Alckmin, de Henrique Meirelles e de Haddad eram tão poderosas estruturalmente quanto a de Jair Bolsonaro. Na disputa pela adesão ao comportamento humano coletivo, a campanha de Alckmin não sensibilizou em nada nem a população do estado de São Paulo. As campanha de Henrique Meirelles e Álvaro Dias não sensibilizaram a população. Ciro Gomes, em 2018, sensibilizou muito pouco a população, com sucesso em sua base política no estado do Ceará. Alguém que sabe usar muito bem as redes sociais é Marina Silva e seu partido, a Rede, que chegaram a um por cento dos votos, tendo uma estrutura profissional muito bem feita de marketing de redes sociais e digital. É uma fantasia acreditar que as redes sociais substituíram a televisão, o rádio e a presença face-a-face dos candidatos, mesmo porque tudo é digital e transmitido em tempo real pelas mídias da Disrupção Digital.
Elas vieram somar, dar agilidade, levar as mídias tradicionais já digitalizadas a qualquer tempo e hora aos eleitores com os links postados. O que é veiculado nas redes sociais gera emoção, impacto, mudanças de comportamento e tomadas de decisão por sua individualização via smartphones.
Todos os candidatos têm condições de ter, e possuem, estruturas profissionais, eficientes de comunicação e massificação de postagens nas diversas mídias, redes sociais e nas redes de smartphone. Destaco essa percepção, formada pela análise de muitas pesquisas, de que existe espaço para candidaturas bem estruturadas do senador Rodrigo Pacheco, de Minas Gerais, e outra da senadora Simone Tebet, de Mato Grosso do Sul. Chapas com Rodrigo Pacheco e Simone Tebet possuem estruturas muito bem montadas em todo o Brasil e nos múltiplos universos midiáticos. Se elas se concretizarem, seduzirão parcelas significativas do eleitorado no primeiro turno, pois unificam as principais forças políticas e partidárias das regiões sudeste e centro oeste. Além de contar com o apoio da campanha para governo do estado de Geraldo Alckmin/Márcio França, e do representativo prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes. São campanhas com bases sólidas na região sudeste, concentradora dos maiores colégios eleitorais. Com facilidade de espalhamento e contágio de influência para a região sul, nos estado do Rio Grande do Sul, do Paraná, e de Santa Catarina, e para os estados da região Centro-Oeste, Tocantins, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul. Além de contar com o pragmatismo do governador Cláudio Castro, que declarará voto a Jair Bolsonaro, mas terá uma campanha eclética já com um núcleo muito bem definido de apoio a Luiz Inácio Lula da Silva, um pequeno, também já definido, de apoio a Ciro Gomes, e que estará de portas abertas para ter núcleos também de apoio a Rodrigo Pacheco e Simone Tebet.

As chapas de Rodrigo Pacheco e Simone Tebet devem ganhar protagonismo a partir de novembro de 2021, com a filiação de Rodrigo Pacheco ao PSD, não permanecendo no União Brasil, fortalecendo o Partido Social Democrata de Kassab e o aparecimento público da sua pré-campanha a presidente da república junto com o aparecimento público da pré-campanha para presidente da república de Simone Tebet. Isso acontecerá ao longo dos meses de novembro e dezembro de 2021, se estendendo até junho de 2022. Junho é o prazo para todas as pré-candidaturas se transformarem em candidaturas. A possibilidade da pré-campanha de Sérgio Moro, se vier a se filiar no Podemos, anima os herdeiros órfãos do “Lavajatismo”. O PSDB deve ter um uma chapa própria com João Doria ou com Eduardo Leite. Não creio que o PSDB abra mão de disputar o primeiro turno sendo vice de Ciro Gomes. As demais candidaturas não querem um casamento eleitoral com o PSDB no primeiro turno.

Esse cenário prospectivo colocará a disputa eleitoral para Presidente da República sintonizada com as campanhas de governador nos vinte e seis estados e no Distrito Federal. A própria estratégia de Luiz Inácio Lula da Silva está a fortalecer campanhas de candidatos a governador que não são do PT e ter nomes próprios ao senado e uma chapa forte para Deputado Federal. O projeto do PT é eleger de quinze a dezoito senadores e oitenta e cinco deputados federais. O mesmo projeto tem o PSD, que estará disputando a Presidência da República em composição. Tanto que, no PT, uma ala quer a chapa Lula/Rodrigo Pacheco, mas não acredito que essa articulação tenha sucesso. O PSD, também, quer eleger de quinze a dezesseis senadores e oitenta deputados federais. Sem falar no União Brasil, a fusão do DEM com o PSL, que cria o maior partido na Câmara dos Deputados hoje, com oitenta deputados, e tem como projeto, também, uma bancada muito forte com mais de cinquenta deputados federais. O MDB terá até abril de 2022 Simone Tebet em seus quadros, e ficará feliz com uma bancada de 15 a 20 deputados federais, e de 5 a 6 senadores. A de Luiz Inácio Lula da Silva, a de Jair Bolsonaro, a de Ciro Gomes, a de João Dória ou Eduardo Leite, a de Rodrigo Pacheco e a de Simone Tebet. Sendo que a campanha de Rodrigo Pacheco e Simone podem, em hipótese, se juntar a partir de junho de 2022, em uma chapa. Isso é de interesse da cúpula do MDB. Com lances de cooptação de Rodrigo Pacheco para ser o vice de Luiz Inácio Lula da Silva. De toda forma, este cenário mostra que a competição será muito forte entre esses 6, 5 ou 4 candidatos.

Cada eleição para Presidente da República tem uma pauta, tem algo que move os sentimentos do eleitor e o leva a tomar uma decisão a favor ou contra.

Na última eleição a pauta foi o combate a corrupção com o apoio integral à “Operação Lava-Jato” e buscar substituir todos os políticos e partidos políticos conhecidos, o “Lavajatismo”. Jair Bolsonaro encarnou, personificou essa pauta, foi vitorioso com votação muito expressiva no primeiro turno e uma votação expressiva no segundo turno. Os demais candidatos como Geraldo Alckmin, Henrique Meirelles, Álvaro Dias, Marina Silva e Ciro Gomes foram atropelados por essa ideia, esse afeto do eleitor, essa variante móvel, sentimental do eleitor, de rejeitar todo o sistema político. Fernando Haddad herdou o que se tinha de memória do governo Lula. O ex-presidente estava preso e havia não apenas uma lembrança do governo Lula, mas uma estrutura de campanha muito bem organizada de Fernando Haddad, que fez com que ele tivesse uma boa performance no primeiro turno e uma quantidade de votos significativa no segundo turno.

A pauta da eleição de 2022 ainda não está definida. Existe um resquício do que poderíamos chamar de Lavajatismo sem Jair Bolsonaro, o qual tenta impulsionar uma campanha de Sérgio Moro à presidência da república. Campanha que poderá sair na medida em Sérgio Moro se filie ao Partido Podemos até o final de abril de 22. A questão da pandemia da covid-19 também não está clara como pauta da eleição de outubro de 2022. O que temos em relação à pandemia é a ligação da peste, no início da doença, há dois anos atrás e até o presente momento como variável vinculada ao desgaste, uma alavanca de desgaste da figura de Jair Bolsonaro e de seu governo.

O que tenho percebido nas várias pesquisas de opinião sobre o desempenho e a desaprovação do presidente da república é uma situação genérica de que o Brasil está mal, uma angústia desfocada da população com um imenso ceticismo. É o desemprego em escala aritmética crescente, a ociosidade de jovens e idosos, a falta de possibilidades de geração de renda, mesmo com o mito do empreendedorismo sendo incentivado por décadas, a “carestia” – chamo de “carestia” para usar deliberadamente uma palavra popular velha – que economistas e jornalistas chamam na atualidade de inflação dos alimentos e cesta básica. O fato é que os produtos e serviços de consumo no dia-a-dia da maioria da população estão com preços muito elevados, os salários não acompanham a escalada inflacionária, ao mesmo tempo que existe falta de salários e de renda. Isso leva a desigualdade social e a fome a patamares muito elevados. Alguns candidatos, como Lula, Ciro Gomes, Eduardo Leite vêm sinalizando a ideia de criação de milhões de empregos. Essa ideia não se sustenta dentro do novo panorama do sistema produtivo nacional e mundial. A ideia de emprego como a que tínhamos a partir de 1930 desapareceu. Temos um sistema produtivo centrado nas tecnologias de informação, as indústrias focadas na inteligência artificial e automação, os serviços passam por uma automação vertiginosa. Ao mesmo tempo que a produção agropecuária também tem todo uma alavancagem a partir da tecnologia genética, das tecnologias de informação, da inteligência artificial e, em curto espaço de tempo, nos processos produtivos com célula tronco. Portanto, quem quiser falar em emprego, vai ter que qualificar e reconceituar a ideia de emprego.

Na minha avaliação, o que melhor define essa situação é quem vocaliza um programa permanente que garanta renda mínima para a população, renda mínima universal para todos, excluindo aqueles que efetivamente não precisam, mas não a renda mínima com o conceito do senador Eduardo Suplicy nos anos finais do século 20. Esta tem que ser adaptada para ser universal, em um modelo de uma vida híbrida digital, que os especialistas chamam de mundo figital. A Disrupção Digital (ou do inglês Digital Disruption) é um conceito do professor Clayton Christensen, da Universidade de Harvard, empregado para descrever os impactos e criação de novas realidades sociais, produtivas, de sociabilidade e de afetividades das tecnologias digitais sobre as formas tradicionais dos relacionamentos humanos e da produção. A expressão “Disrupção Digital” causa um espanto, uma reação de repúdio, uma rejeição imediata, na maioria das instituições governamentais, empresariais, partidárias, sindicais e políticas brasileiras. Mas não há como fugir da Disrupção Digital, é preciso compreendê-la com urgência, estudar, pesquisar seus efeitos com profundidade e acuidade, entrar em sua dinâmica e universo de fazeres cotidianos e irreversíveis. Disrupção Digital não são só duas palavras, é um modo de vida, que implica no encerramento da maioria das atividades de todos os campos e áreas do sistema produtivo, de gestão pública, associativa e privada, de educação, lazer, e relações sociais. Encerramento já nos próximos 2 anos, nas organizações formatadas dos anos 1200 até as com a fisionomia dos anos 1990, já com reengenharias e reestruturações produtivas, políticas e sociais. Disrupção digital é um conceito que sintetiza todos os impactos que as tecnologias digitais estão exercendo sobre o dia-a-dia das pessoas, dos espaços íntimos às esferas e espaços públicos, hoje já todos híbridos, figitais, os modelos de gestão públicos, governamentais e empresárias, dos negócios de todos os setores das cadeias produtivas e de serviços. Um impacto significativo para as crianças, os adolescentes e os jovens universitários. Um sistema de ensino que não voltará a um passado de quinze anos atrás. Esse novo sistema de ensino representa a ressignificação do local, do espaço arquitetônico da escola, como local de sociabilização coletiva em que a presença do professor e do estudante convivem com a chegada de conteúdos digitais e o convívio coletivo, em salas de aulas digitalizadas e com uso dos smartphones, dos tablets e dos laptops por estudantes, professores e professoras e demais funcionários. Uma proposta que pense de maneira contundente o refazimento dos sistemas escolares, um refazimento dos sistemas escolares sem a demagogia de falar em treinamento e educação continuada para os professores. Teremos cada vez mais o papel dos governos municipal, estadual e federal administrando diretamente escolas, creches, escolas técnicas, universidades técnicas e universidades. Sendo que esses espaços serão absolutamente diferentes do que são hoje. Estou chamando a atenção para isso, porque é o passaporte para o mundo do trabalho, que não pode ser pensado como dos anos 1930 até o final dos anos 1970. Quem fala hoje no mundo do trabalho como no século 20 está absolutamente desconectado com o que está acontecendo na vida real. Esse mundo híbrido digital afeta toda a administração pública, como todos os espaços.

Um programa que assegure renda mínima para que as pessoas possam desenvolver atividades em contraponto à ociosidade, na medida em que o novo mundo produtivo vai gerar uma ociosidade, o que caminhará para movimentos de depressão em massa. Portanto, pensar em atividades fora da ideia de emprego vinculadas ao sistema híbrido, ao sistema figital, pós disrupção digital. É essencial que o governo brasileiro e todas as instituições passem a adotar comportamentos, táticas e estratégias visionárias. Isto é, inovando procedimentos e incorporando a vida social cibernética, para não se consolidar com uma nação pária do planeta. Não há certeza de que a digitalização do cotidiano seja um fator positivo para a totalidade da população e a sociedade nacional como um todo, mas ela está aí, com o 5G se popularizando de maneira ampla no Brasil até junho de 2022, com a Internet das coisas na rotina doméstica e empresarial, com os softwares de Inteligência Artificial, e serão sempre aperfeiçoados, melhorados, reconfigurados por demandas, pressões políticas, sociais e comunitárias de todas as ordens e naturezas.

Com base na premissa de que o governo brasileiro vai expandir as redes de proteção social e as Cidades Inteligentes serão inclusivas e acolhedoras de suas populações, a Disrupção Digital pode ser considerada como uma forma de progresso humano, agregando valor de qualidade de vida ao conjunto, à totalidade dos cidadãos e cidadãs, na medida que implanta novas soluções, novos padrões e novos e surpreendentes procedimentos e rotinas. Sem essa premissa cidadã, republicana e includente, as tecnologias disruptivas oferecem risco à sobrevivência não apenas das organizações sociais e políticas, mas das pessoas como seres humanos, que é a tendência de hoje, que reativos ao mundo figital e a Disrupção Digital chamam acertadamente de “Precarização do Trabalho”. Que vêem na inevitável e irreversível Disrupção Digital uma ameaça política, social, empresarial, sindical e comunitária. Já faz algum tempo, desde o final dos anos 1980 do século passado, que a ideia de viver em um universo totalmente conectado à internet não é uma ficção científica, mas um fato rotineiro da convivência dos brasileiros. Hoje é uma redundância do mundo híbrido, figital. Por essas razões, mais do que compreender em detalhes o conceito de Disrupção Digital, de Mundo Híbrido, de Vida Figital, o governo brasileiro, os partidos políticos, as agremiações cívicas, sociais, empresárias e comunitárias devem refundar suas práticas e montar as suas estratégias. Disrupção Digital não é tendência para o futuro, é um fato do tempo presente, do cotidiano de agora. Não vejo vários candidatos falando sobre isso, sobretudo Ciro Gomes, Eduardo Leite, João Doria e Luiz Inácio Lula da Silva. Jair Bolsonaro nunca tem proposta para sua campanha de governo. De toda forma, espero que as pré-campanhas pensem em tornar os 5570 municípios brasileiros, mais Brasília, em cidades Inteligentes; pelo menos, nos próximos anos, quinhentas cidades inteligentes. Combinar a presença física e o digital, esse convívio híbrido do face-a-face com o digital, que os especialistas chamam de figital. É um desafio. Quem vier falar em geração de emprego não terá sucesso, porque não há mais como gerar emprego dentro desta nova realidade do mundo produtivo. Enfim, já estamos vivendo esse fato da Disrupção Digital com toda a sua amplitude. Se não o enfrentarmos nos inserindo, nos incorporando a essa realidade, aderindo aos seus processos, em um país como o Brasil, com uma desigualdade histórica ancorada no escravismo, no racismo, no analfabetismo das populações descendentes dos escravizados e dos pobres em geral, não resolvemos nossa sobrevivência.
Repetir os sistemas populistas de mitigação da pobreza e os arranjos trabalhistas que foram feitos ao longo de décadas, desde 1850, acelerados nos últimos 30 anos, não trará mudanças efetivas da qualidade de vida, da qualidade de gestão no Brasil. Ou entramos no mundo híbrido cibernético, na vida figital com as disrupções digitais para valer ou seremos descartados como sociedade nacional, efetivamente párias mundiais.
Espero que nas pré-candidaturas colocadas essa preocupação apareça.
Ela não está presente na pré-candidatura de Jair Bolsonaro, não está presente na pré-candidatura de João Doria, não está presente na pré-candidatura de Eduardo Leite, não está presente na pré-candidatura de Luís Inácio de Lula da Silva e não está presente na pré-candidatura de Ciro Gomes. Todas essas pré-candidaturas falam em modelos de desenvolvimento, trabalho e renda que são modelos que estão mortos, estão sepultados pela Disrupção Digital.

    *Sociólogo, cientista político e professor da UFRJ.