A União Brasil saúda o povo e pede passagem

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Por Paulo Baía

O tabuleiro político não para de se mexer, é o jogo da política sendo jogado. Estamos a um ano da eleição presidencial de 2022, mas o jogo político está intenso, estratégico, no outubro de 2021. O próximo movimento significativo nesse tabuleiro é a união do partido Democratas, o DEM, com o Partido Social Liberal, o PSL. O DEM vem de desgastes eleitorais e políticos nos últimos anos. É um partido de longa tradição da direita, dos conservadores e da centro direita brasileira, tem capilaridade e importância regional e municipal nas 5 regiões geopolíticas do Brasil.

O PSL surge do nada, surge como um foguete impulsionado pela eleição disruptiva de Jair Bolsonaro, em 2018 e o “lavajatismo”. A importância para o jogo eleitoral da fusão do DEM com o PSL é que a organização das forças dos espectros das direitas do parlamento nacional e as forças das direitas nos principais estados brasileiros vão concatenar uma oposição institucional e partidária a Jair Bolsonaro, não necessariamente ao governo federal,em todos os estados brasileiros.

O DEM tem capilaridade e estrutura, embora tenha perdido força nas eleições de 2016, para prefeitos, em 2018 na eleição para Deputados Estaduais e Federais e agora, em 2020, nas eleições para prefeito.


Essa modificação, aparentemente burocrática, da junção de dois partidos cria a maior força parlamentar na Câmara dos Deputados. Serão mais de oitenta deputados. Isso não muda muito o cenário das votações para o Governo Federal ou para a oposição do Governo Federal na Câmara dos Deputados sob a batuta de Arthur Lira. Esses partidos que se juntam para formar a União Brasil, como eu disse, são partidos de direita, conservadores, que se colocarão contra a reeleição de Bolsonaro em 22. Portanto, você tem na costura de um tecido político eleitoral, na formação desse desenho geométrico partidário, um deslocamento poderoso de forças da direita que estiveram com Jair Bolsonaro desde 2018 ou que surgiram com Jair Bolsonaro, como o PSL, formando quadratura, essa grande estrutura político-partidária com poder de competição nas diversas regiões do país.

Por que poder de competição? Pois o novo partido terá o maior fundo eleitoral, o maior fundo partidário, uma imensa capilaridade municipal. Muitos vão dizer que isso não é muito importante, que 2018 mostrou que essa estrutura foi derrotada por Jair Bolsonaro. Geraldo Alckmin tinha uma grande estrutura e o maior fundo eleitoral. O MDB, com Meirelles, também. Mas não vamos descartar o poder competitivo de uma estrutura como a do União Brasil num processo eleitoral que não se mostra disruptivo como em 2018.

As pesquisas de diferentes institutos, hoje, mostram um desgaste crescente de Jair Bolsonaro e dão indicação de que Lula está bem colocado. Esse é o retrato de outubro de 2021 em todas as pesquisas.


Esse jogo não está definido agora, está em movimento, é evidente. Você tem Lula expressivo, um fortíssimo candidato no agora, e Jair Bolsonaro, mesmo com desgaste, com uma resiliência significativa, importante eleitoralmemte, entre 10 a 20% dos eleitores. Assim, um partido de direita, organizado, tradicional, com maís de 80 deputados federais, muitos prefeitos, muitos governadores, presença nos 26 Estados e no Distrito Federal, dinheiro do fundo eleitoral, dinheiro do fundo partidário e tempo de televisão, além de ter dinheiro para contratar uma grande estrutura de mídias digitais e softwares de inteligência artificial, portanto, de acesso múltiplo às redes digitais e de smartphone, não se pode descartar como competitivo, como poderoso na formação de um vetor que vai atuar contra Jair Bolsonaro, principalmente. Vai atuar contra Jair Bolsonaro, com pretensões de enfrentar Lula no segundo turno.


Vamos ver os movimentos que teremos agora. O partido será anunciado certamente até o final do mês de outubro de 2021, até a formação da sua chapa, já que o presidente do DEM anuncia que terão candidatos próprios, mas há possibilidade de coligações com partidos também de densidade importante como o MDB, com Simone Tebet, como o PSDB, desde que Eduardo Leite seja o candidato. Nós vamos ter essas definições pouco a pouco até abril de 2022.


Enfim, as configurações da disputa estão em andamento, em formatação. Ainda não tivemos o “treino classificatório” para decidir o “grid de largada”, fazendo uma comparação com a Fórmula 1 do automobilismo. Ainda não sabemos quem estará na corrida para valer para a presidência da república em outubro de 22. Neste momento, a fotografia dos principais institutos de pesquisa é que Lula está na frente seguido de Bolsonaro, sem candidatos a colocar em risco suas candidaturas, com Lula com todas as vantagens pré-corrida.

Candidatura de Ciro empacada num “vai mas não vai” e candidaturas como João Dória e Mandetta sem sinal de competitividade, com Sérgio Moro como um espectro fantasmagórico para roubar a cena de Jair Bolsonaro.
A União Brasil não quer ressuscitar o “lavajatismo”, mas pode usar Sérgio Moro como candidato contra Lula e Jair Bolsonaro a um só tempo, apostando em Rodrigo Pacheco, Simone Tebet ou Eduardo Leite.


A União Brasil, vem para ser oposição às campanhas de Jair Bolsonaro e Lula em 22 e eleger a maior bancada de deputados federais e governadores em estados geopolíticos estratégicos.


Voltamos, então, à hipótese de formação de novo quadro, cenário, para a disputa eleitoral de outubro de 2022. Esse cenário vai se agitar até abril do ano que vem, período de definição de domicílio eleitoral, de mudanças de partidos e filiação partidária. No período de abril a junho de 22 os partidos vão se movimentar para oficializar as suas candidaturas, lançar-se na disputa para a Presidência da República, assentada em candidatos a governador nas 27 unidades da federação e na disputa das 27 vagas ao Senado.

Enfim, temos uma novidade em andamento, que é o surgimento da União Brasil com a fusão do DEM com o PSL. Uma movimentação que não pode ser descartada e encarada como uma união de desesperados. Não, não é uma união de desesperados, é a união de ACM Neto e Luciano Bivar, que são testados, são longevos, possuem experiências estratégicas e táticas eleitorais. São vitoriosos há muitos anos no Brasil, inclusive na eleição disruptiva de 2018.


Nada está definido em outubro de 2021, como é a regra dos processos eleitorais em uma democracia.

    * Sociólogo, cientista político e professor da UFRJ.