As emoções são circulares e dialéticas

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 Por Paulo Baía

“Nenhuma obra-prima da literatura – incluídas aí as peças de teatro – sobrevive ao tribunal do politicamente correto. No politicamente correto, as emoções só podem ser planas. É uma espécie de terraplanismo das artes.”

            Cesar Benjamin

A literatura, o cinema, o teatro, a música sempre exerceram um enorme fascínio em minha vida, fui movido pela literatura, fui movido pelo cinema, fui movido pelo teatro e pelas canções.

A partir da emoção de ler poemas, contos, crônicas, romances, a partir da ficção escrita, eu tive o prazer de exercer emoções e afetos. Depois, o encantamento pelas telas, o encantamento pelo lirismo da tela, pelo romantismo, pelo fatalismo da imagem, pela dura realidade das telas.

No cinema, eu não comparo um filme com um romance, mesmo que tenha lido o romance em que um filme foi baseado.

Eu nunca faço uma transposição para dizer se foi fiel ou não ao texto, ao romance, ao conto.

Um autor ou autora, ao escrever um romance, um conto, um poema, uma canção, tem várias motivações. Muitas vezes fala dele mesmo, muitas vezes fala do mundo que o cerca, muitas vezes fala de outras pessoas e do sentimento dessas pessoas, tanto na literatura, no cinema, no teatro e nas músicas. Portanto, você sabe ao ler distinguir a narrativa, se está na primeira pessoa, na fala do autor como personagem de si mesmo ou se o personagem que está falando é um outro. Essa coisa fantástica, fascinante, de colocar narrativas em personagens inventados ou captados das vielas do mundo da vida cotidiana. E a narrativa do personagem não é a narrativa do pensamento do autor. Ali, a ideia do “Eu Lírico” está presente, na medida em que um autor consegue transpor para a fala de personagens aquilo que é o sentimento do mundo dos outros, dos diferentes de si mesmo, um exercício de alteridade lírica em prosa e verso.

Já há bastante tempo me incomodo quando vejo alguém falando: “ah, mas esse filme não expressa, exatamente, a realidade.” Querem documentários em vez de filmes de ficção ou, muitas vezes também, dizem que um romance não retrata a vida de maneira fidedigna.

Ora bolas, um romance, toda a literatura, os poemas, as músicas, não são feitas para retratar a vida como ela é, um diário de campo etnográfico ou uma ficha catalográfica. O romance é feito para expandir aquilo que é o sentimento do mundo, os afetos, os humores e as invenções do autor que o fez.

São histórias contadas, em sua maioria são fabulacões de que você, como leitor, se apropria, ressignifica.

O sentimento do mundo que não é do autor, mas que o autor percebe e coloca essa percepção – que não é a dele – na fala de um personagem.

Isso vale para o poema, isso vale para a letra de uma música, para um diálogo teatral, cinematográfico, ou nas linhas de um conto, uma crônica, uma alegoria ficcional.

Portanto, a ideia tão bem concebida do “Eu Lírico” corre perigo, ideia e prática que está em risco de ser exterminada, como na Revolução Cultural de Mao Tsé-Tung na China de 1966 até 1976, que eu chamo de “Totalitarismo Exterminador”, na medida em que existem potentes, organizados e ágeis movimentos e pessoas a exigir que os textos sejam despidos das emoções do mundo, das historicidades, das emoções do autor e das emoções das pessoas que circundam o autor, e que o autor consegue traduzir em narrativas de personagens criados, inventados ou retratados.

É preciso gritar que o planeta terra e as emoções humanas não são planas, possuem circularidade e dialética.

Agora mesmo, terminou quarta-feira passada, dia 26 de Janeiro, o curso maravilhoso sobre William Shakespeare e Nelson Rodrigues. Um curso ministrado, de maneira fabulosa e instigante, por Moacir de Góes, com algumas aulas criativas e não dogmáticas do querido professor e historiador André Chevitarese, ativou ainda mais minha percepção e conhecimento sobre o “Eu Lírico”, o autor, os personagens, o tempo histórico e as narrativas dos sentimentos humanos na ficção, dramaturgia e literatura.

Aliás, sendo aluno de André Chevirarese nesse curso, tive o prazer supremo de ter um bom ex-aluno como professor.

Oh Glória!

Amigos e amigas, estou com medo, irritado, coagido.

Estou com medo, pois aquilo que o William Shakespeare escreve, aquilo que Nelson Rodrigues escreve, um Nelson Rodrigues muito bem definido por Moacir de Góes como o único gênio da dramaturgia brasileira. Eu falei GÊNIO. Não falei um bom dramaturgo, bons temos vários e várias, eu falei que concordo inteiramente com Moacir de Góes, Nelson Rodrigues é o único gênio da dramaturgia brasileira.

Meu medo de leitor, de cinéfilo, de plateia é de que toda a literatura, toda a produção cinematográfica, toda a poesia, toda a dramaturgia, produzidas ao longo de séculos e que nos chegam vindas do Egito, da Grécia, dos recantos das várias europas, das Rússias, da China milenar e eclética, do Japão, da Coreia. Nos chegam vindas do Irã.  Nos chegam vindas das Áfricas, do Congo, da Etiópia, da África do Sul, de Moçambique,de Cabo Verde, Angola, sejam banidas para os porões da invisibilidade.

Enfim, nós estamos sob ameaça, sob vigilância panótica, ameaça de ver exterminadas a possibilidade de que as emoções e os afetos se expressem na literatura, na dramaturgia, no cinema.

Um neorrealimo aos moldes  stalinistas.

Estamos sob um risco maior, de deletar aquilo que foi produzido ao longo de séculos.

Jogar no lixo a riqueza literária, dramatúrgica, cinematográfica e artística em nome de um ativismo moral de superioridade ético-política de pequenos grupos que se autoproclamam protótipos do correto e do que é certo social e politicamente.

Os modelos de “virtude cívica” a serem espelhados no nosso cotidiano de vida.

Assim, em sintonia com a citação que faço no início desse artigo, de Cesar Benjamin, eu digo que precisamos, com urgência, bradar ao mundo: “A terra é redonda!” Não podemos incorporar a ideia de emoções planas.

A ideia de um “terraplanismo” cultural.

Recomendo a leitura de Shakespeare.

Mais do que nunca, leiam Shakespeare, assistam as peças de Shakespeare, assistam os filmes baseados em Shakespeare.  Nem vou falar em Nelson Rodrigues.

Vou falar em Shakespeare. Falar em Shakespeare, a partir dessa nova visão que tenho de Shakespeare com as aulas de Moacir de Góes. 

Eu já tinha um Shakespeare sociológico na cabeça, que norteou muitas das minhas leituras das peças de Shakespeare e que está expresso na tese de doutorado da Bárbara Helliodora, “O homem político em Shakespeare”.

Mas, com Moacir de Góes, com André Chevitarese, eu tive uma  agregação de valor a minha percepção da literatura de Shakespeare, uma nova e revigorante visão.

Uma visão vinculada à formação de um mundo emocional. De um mundo em que a questão do poder, do ciúme, da inveja, enfim, de todos os sentimentos humanos, está presente na fala em primeira pessoa do próprio Shakespeare e na fala de seus personagens. Que não é apenas o pensamento de Shakespeare, mas é o que Shakespeare consegue detectar do mundo, da vida e das emoções.

Assim, eu me solidarizo com a ideia de Cesar Benjamin. As emoções não são planas.

As emoções são circulares e dialéticas.

         *Sociólogo, cientista político e professor da UFRJ, em 29 de Janeiro de 2022.