Clarissa Garotinho e André Ceciliano vocalizam a polarização Lula x Bolsonaro no RJ

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*Paulo Baía

Vamos continuar nossa análise das pré-candidaturas à única vaga ao Senado no estado do Rio de Janeiro. O primeiro artigo foi sobre André Ceciliano, hoje vou falar de Clarissa Garotinho, uma jovem mulher militante desde criança, filha de uma família com firmeza e contradições na política e no governo do estado do Rio de Janeiro, com foco no norte fluminense e na Região Metropolitana, e âncoras nos demais municípios do interior.

Só não tem acesso, visibilidade e aceitação basicamente em duas cidades, em dois municípios importantes do Estado do Rio de Janeiro: o município do Rio de Janeiro – nas zonas sul e norte da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro – e no município de Niterói. As classes médias e altas são hostis a Clarissa Garotinho na cidade do Rio de Janeiro e na cidade de Niterói, porém o nome de Clarissa Garotinho é bem-vindo e não é rejeitado em áreas populares, pobres e favelizadas da antiga e da nova capital do novo estado do Rio de Janeiro, de 1975 para cá.

Clarissa Garotinho é conhecida por toda a população do Rio de Janeiro e é conhecida pelos 12 milhões de eleitores fluminenses e cariocas aptos a votar no dia 2 de outubro de 2002 nas eleições gerais.

Clarissa, na minha avaliação, é uma das mais potentes candidaturas, pois a disputa para o senado está em aberto, como vemos nas pesquisas da Quest/Genial e do IPEC.

Na pesquisa do Instituto Quest, publicada no dia 14 de julho – na semana passada – nós tinhamos Clarissa Garotinho no cenário estimulado com 9% de citações, num quadro difícil, sem convicções dos pesquisados, um cenário fotográfico que mostra que a única vaga ao senado está em aberto.

Pois nessa mesma pesquisa da Quest/Genial, antes da planilha com os nomes induzindo os pesquisados, nós temos uma pergunta em aberto: em quem você vota para o Senado?

Nessa pergunta espontânea, aberta, 90% dos entrevistados não têm candidato e ainda não pensaram sobre candidaturas ao senado. Romário aparece em primeiro lugar com 3% das citações espontâneas. No entanto, no cenário estimulado, como uma surpresa para todos e todas, o deputado federal Alessandro Molon dá um salto em relação a pesquisa anterior da Quest, aparece em segundo lugar com 11%, e Clarissa Garotinho em terceiro lugar com 9% da citações de adesão. Os demais nessa sequência: Daniel Silveira (7%), André Ceciliano (5%), Otoni de Paula (4%), que eu afirmo terem enorme potencial competitivo pois, com as citações na pergunta espontânea da pesquisa Quest, pode-se afirmar que nos dias anteriores ao 14 de julho praticamente não se tem candidatos já definidos à vaga de senador.

Essa análise também está ancorada na pesquisa do IPEC – Instituto “Inteligência em Pesquisa e Consultoria” (ex Ibope) Embora a pesquisa do IPEC, a meu ver, tenha fragilidade técnicas, ela tem um cenário que se assemelha ao da pesquisa da Quest. Sempre ressalto: não se pode comparar pesquisas de institutos diferentes. A pesquisa do IPEC tem 3% de margem de erro, o que considero um exagero, e tem a escolha dos nomes de Induzidos para o Senado muito confusa com as informações já disponíveis nos dias em que a pesquisa estava na rua. Mas mesmo considerando também dados da pesquisa do IPEC divulgada hoje, dia 21 de julho, podemos afirmar que a vaga ao Senado continua aberta e que os nomes que estão na disputa nesta eleição são os já fotografados na pesquisa do dia 13 pelo Instituto Quest. Não há modificação nesse quadro, portanto Clarissa Garotinho entra no jogo – e entra no jogo como titular – na disputa da vaga ao Senado.

Esse cenário, para Clarissa Garotinho é bem diferente de 2018, bem diferente da sua candidatura a prefeita da cidade do Rio, que não foi bem sucedida pelo ponto de vista eleitoral, mas foi bem sucedida pelo ponto de vista do marketing político e eleitoral em 2020.

Hoje Clarissa Garotinho é do partido União Brasil, junção do antigo Partido Social Liberal – PSL com o DEM. Eram partidos muito grandes, com muita capilaridade no estado do Rio de Janeiro, e o União Brasil continua sendo.

Clarissa Garotinho se beneficia do recall de sua trajetória como parlamentar e candidata a prefeitura da cidade do Rio de Janeiro, vai potencializar essa performance agora, no final de Julho e ao longo do mês de agosto de 2022.

No mês de agosto, quando a campanha efetivamente começa e quando os programas de televisão e rádio começarem ao ir ao ar, vocês vão perceber que o União Brasil tem um enorme tempo de rádio e televisão, portanto Clarissa Garotinho terá grande exposição.

Clarissa Garotinho tem condições e uma estratégia que vem usando nos últimos meses, ser interlocutora do presidente Jair Bolsonaro no estado do Rio de Janeiro, ser bem mais próxima à campanha de Jair bolsonaro, mais do que o senador Romário, que tecnicamente, formalmente, é o candidato do partido do presidente Jair Bolsonaro e do partido do governador Cláudio Castro, o Partido Liberal – PL. Mais um obstáculo que Clarissa Garotinho colocou no tabuleiro político, estrategicamente colocando-se em um dos lados da polarização Lula x Bolsonaro.

A campanha está polarizada, para Presidente da República, entre Jair Bolsonaro e Lula.

Lula já escolheu um candidato ao Senado no estado do Rio de Janeiro, que é André Ceciliano. Descartou os demais candidatos, como Alessandro Molon.

Quem vai ficar com Lula da Silva em tempo integral e continuo é André Ceciliano, para enfrentar Jair Bolsonaro em todos os contextos e localidades.

Romário, de quem vou falar no terceiro artigo sobre a disputa ao senado no RJ, tem 16 anos de parlamento nacional, tem uma vida política solo, como parlamentar, futebolista e celebridade social/popular.

A ligação de Romário com Jair Bolsonaro é formal, protocolar, como sua ligação com Cláudio Castro é igualmente formal, institucional. Então, juntando essa ligação de Romário/Cláudio Castro/Jair Bolsonaro, há uma outra questão política, tática e estratégica de Clarissa Garotinho: com o anúncio de sua candidatura ao senado federal, pelo União Brasil, houve a firme e contundente declaração de Anthony Garotinho de que não apoia Cláudio Castro em nenhuma hipótese.

A declaração de Anthony Garotinho, de que não apoia ou apoiará Cláudio Castro, é portanto uma sinalização de que Clarissa Garotinho também não apoia Cláudio Castro, ficando livre em relação a um nome para o governo do estado do Rio de Janeiro, não entrando na polarização para o governo do RJ, entre Cláudio Castro e Marcelo Freixo.

O perfil do eleitor que Clarissa Garotinho busca certamente estará nas campanhas de Cláudio Castro, Rodrigo Neves e do Coronel Emir Laranjeiras. Os candidatos que têm voto mais próximo a Marcelo Freixo são Cyro Garcia e Eduardo Serra.

Paulo Ganime, do Partido Novo, corre em faixa própria e exclusiva, é um absoluto desencaixado.

Assim, Clarissa Garotinho pode se dar ao luxo de simplesmente não declarar voto em nenhum candidato ao governo do estado do Rio, ou formalmente estar na chapa de Cláudio Castro em silêncio, mas a prática de Cláudio Castro é flexível, permitindo que se faça um aríete eleitoral pragmático denominado Castro/Lula. Eu creio ser difícil que a frente Castro/Lula absorva a candidatura de Clarissa Garotinho, pois essa frente já tem o protagonismo estoico de André Ceciliano, então é mais fácil – as vias são desobstruídas – para Clarissa Garotinho caminhar para bases municipais com vínculo preestabelecido com Cláudio Castro e com vínculo com Rodrigo Neves, potencializado pelo apoio do grande eleitor Eduardo Paes.

Clarissa Garotinho ficará com bastante liberdade, formalmente apoiando Cláudio Castro, semelhante à liberdade de André Ceciliano apoiando Marcelo Freixo.

Clarissa Garotinho pode também, em suas bases mais afetivas, apoiar Rodrigo Neves, pois nos caminhos e vielas de Anthony Garotinho existe uma definição pró-Rodrigo Neves e pró-Coronel Emir Laranjeiras. Com a definição de qual será a posição de Anthony Garotinho nessa eleição, se será candidato a deputado federal ou se será candidato a deputado estadual, os estandartes de Rodrigo Neves e Emir Laranjeiras estarão presentes.

Particularmente, penso, intuo, com os sinais captados por meus “radares”, que Antony Garotinho será candidato a deputado estadual, e vai apostar as suas fichas na campanha de Rodrigo Neves, sem vinculações amarradas a nenhuma das campanhas para Presidente da República, que vai ficar mesmo entre Lula e Jair Bolsonaro.

Nós teremos também, não apenas para o governo do estado RJ mas também para o senado federal, uma polarização de suporte a Lula da Silva x Jair Bolsonaro, estampada no embate Clarissa Garotinho/Jair Bolsonaro e André Ceciliano/ Lula da Silva.

As demais pré campanhas competitivas, como as de Romário, Alessandro Molon, Daniel Silveira, Otoni de Paula, com vinculações a mais de uma campanha ao governo do estado, estarão dentro da polarização da mesma maneira, ao lado de Lula da Silva ou de Jair Bolsonaro.

O que vislumbro com os retratos das pesquisas da Quest de 14 de Julho e do IPEC de 21 de julho é que a campanha para o senado estará toda concentrada em André Ceciliano e Clarissa Garotinho.

Se eu fosse estrategista de Romário, o deslocaria de imediato para a Câmara dos Deputados, que tem um lugar garantido para ele com sucesso, pompas e circunstâncias.

No cenário retratado nas pesquisas da Quest e do IPEC, os seis postulantes estão em condições semelhantes de competitividade. São eles, volto a repetir: Romário, Alessandro Molon, Clarissa Garotinho , Daniel Silveira, Otoni de Paula e André Ceciliano.

* Sociólogo, cientista político, técnico em estatística e professor da UFRJ.