O Gambito de Lula/Geraldo Alckmim em novembro de 2021

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Por Paulo Baía

Essa primeira semana do mês de novembro se encerra com duas novidades no cenário da disputa presidencial. A primeira novidade é que Ciro Gomes anuncia uma paralisação momentânea, um afastamento de sua candidatura em função da posição da bancada de deputados federais que votaram a favor da PEC 23 de 2021, conhecida como a PEC dos precatórios ou PEC do calote. Essa proposta de emenda procura assegurar recursos para o “novo Bolsa Família”, nomeado Auxílio Brasil, já que o Bolsa Família tecnicamente já se encerrou e há necessidade então de cobertura desse auxílio financeiro aos que o recebiam e estão inscritos no Cadastro Único, assim como a ampliação dessa faixa de beneficiários.

É evidente que a PEC 23 estabeleceu um inusitado processo de transferência de renda. Uma transferência de quem tem direito adquirido a receber do Governo Federal, sobretudo professores, recursos de várias ordens, decisões judiciais transitadas em julgado e com previsão de pagamento, para os miseráveis e pobres que recebem o Bolsa Família e que passarão a receber o Auxílio Brasil no valor de R$ 400.


A PEC 23 também favorecerá especuladores financeiros que comprarão esses títulos recebíveis da União na “bacia das almas”.
É evidente que a maioria dos deputados votou a favor da PEC porque quer que as pessoas recebam o auxílio do novo Bolsa Família; isso é importante para mitigar a pobreza, a miséria, faz com que o dinheiro circule nos municípios, incentivados também pela liberação das emendas parlamentares, suspensas pela ministra Rosa Weber em decisão monocrática e liminar recente no final dessa primeira semana de novembro.

Os deputados, em sua maioria, votaram e votarão em segunda votação a favor da PEC 23/2021.

Ciro Gomes diz que se os deputados não mudarem sua posição ele não será mais candidato. O que que eu entendo com isso? Eu entendo que Ciro Gomes está tendo oportunidade de fazer uma retirada estratégica e honrosa de sua pré-candidatura, que ficava ali patinando num terceiro, quarto lugar.
Oscilação que, dependendo do instituto de pesquisa, o colocava entre 6% e 11% dos votos.
Enfim, a partir do momento em que Lula se consolida como candidato ao se tornar elegível com as decisões do ministro Edson Fachin e do Supremo Tribunal Federal, sua campanha ofusca e suga o possível potencial da campanha de Ciro Gomes.


O outro dado também importante desse final da primeira semana de novembro é a movimentação da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva para afunilar a eleição de maneira definitiva entre Lula e Jair Bolsonaro. Essa movimentação foca em ter o ex-governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, como candidato a vice em sua chapa.
Com isso, ele resolve a sucessão paulista, apoiando Márcio França pelo PSB, e, também desestrutura uma eventual candidatura de Rodrigo Pacheco do PSD, senador por Minas Gerais.

Concentra as principais forças do centrão, dos liberais e dos conservadores na sua campanha, com a figura de Geraldo Alckmin como vice em sua chapa.
Geraldo Alckmin está com tudo planejado para sair do PSDB até abril de 2022, ou mesmo até dezembro de 2021, está com as malas prontas para ir para o Partido Social-Democrata, o PSD de Gilberto Kassab, que tem como candidato Rodrigo Pacheco.

Pode haver mudança de rota nessa saída de Geraldo Alckmin do PSDB, com ele indo para o Partido Socialista Brasileiro, o PSB, que é o partido do seu parceiro paulista Márcio França.
Com esta decisão, limpa-se o terreno eleitoral no estado de São Paulo para uma forte candidatura ao Palácio Bandeirantes.
O movimento de Lula, buscando Alckmin como candidato a vice, sufoca uma candidatura de Fernando Haddad ao governo de São Paulo. Mas, venho dizendo já há algum tempo, o Partido dos Trabalhadores e a campanha de Lula não estão preocupados em eleger governadores. Eles estão preocupados em fazer uma bancada muito grande de deputados, acima de 85 deputados federais, e eleger entre 15 e 18 senadores na eleição de 2022.
Então, esse arranjo colocando Geraldo Alckmin como candidato a vice-Presidente tem um impacto imenso, pois desestrutura no nascedouro a candidatura de Rodrigo Pacheco do PSD, que vinha sendo articulada com relativo sucesso.


Assim como também aniquila uma possível candidatura de Simone Tebet, tanto no MDB quanto em qualquer outro partido que ela venha a escolher até abril.
Temos um potencial de grande impacto com a candidatura de Sérgio Moro, que vai se consolidar no Podemos.
Com essa chapa Lula/Alckmin, a campanha de Sérgio Moro não tem um grande apelo, adesão, no estado de São Paulo e em outros estados, nos quais as principais forças conservadoras, tradicionais, do parlamento e da política brasileira já estarão representadas na chapa de Luiz Inácio Lula da Silva com Geraldo Alckmin.
Essa movimentação tira votos de Jair Bolsonaro.


Ciro Gomes se afastando e dizendo que só volta se os deputados mudarem de opinião – e ele sabe que os deputados não vão mudar de opinião e vão aprovar a PEC dos precatórios, porque esses deputados querem o auxílio emergencial, com o nome Bolsa Família ou com o nome de Auxílio-Brasil, de R$ 400 nas suas bases eleitorais e suas emendas parlamentares.
Os mesmos deputados que apoiam a PEC 23 o fazem por já terem avaliado que isso tem muito mais peso eleitoral para as suas campanhas do que para a campanha da reeleição de Bolsonaro, que é o que a oposição mais ferrenha à PEC 23 vem alegando.


Um auxílio como esse, o auxílio Brasil, é sempre importante, mas Jair Bolsonaro está com um nível de desgaste tão grande que nem esse recurso o alavancará para além da sua base fidelizada.


Ele ainda se mantém como um candidato forte, mas bateu no teto de crescimento agora nesse final de da primeira semana de novembro.
Então, temos esses dois movimentos que têm grande alcance nos demais movimentos a partir dos próximos meses.


A discussão sobre se Geraldo Alckmin irá compor a chapa já agora, com Luís Inácio Lula da Silva, cria um jogo político que enfraquece, ou mesmo impossibilita, as campanhas de Rodrigo Pacheco, de Simone Tebet e de algumas outras que possam vir a aparecer. Associando a isso uma provável saída definitiva de Ciro Gomes do jogo presidencial, a campanha presidencial já no primeiro turno ficaria afunilada entre Jair Bolsonaro e Luís Inácio Lula da Silva. Ou seja, uma cartada, uma jogada agora em novembro de 2021 para ser resolver no primeiro turno a eleição de outubro de 2022.
Esse é o jogo que está presente e está sendo acelerado nesse final da primeira semana de novembro.


A notícia mais importante e impactante é a real possibilidade da chapa Lula/Geraldo Alckmin e, com isso, um sufocamento, já agora no final de 2021, das candidaturas de Rodrigo Pacheco, Simone Tebet e Ciro Gomes.
Cabo Daciolo do PMB/Brasil e Sérgio Moro no Podemos vão se infiltrar no campo eleitoral”fidelizado” e entre órfãos do Lavajatismo que ainda estão com Jair Bolsonaro.

   * Sociólogo, cientista político e professor da UFRJ.