O protagonismo de Sérgio Moro e Geraldo Alckmin em outubro de 22

Paulo Baía*

Nas últimas pesquisas de sondagem eleitoral divulgadas agora nos últimos dias de novembro pelos institutos QUEST e Atlas, temos a consolidação de três candidatos: de Jair Bolsonaro, estável com um viés de queda; de Lula, estável mas muito bem pontuado; e a recente pontuação bastante elevada de Sérgio Moro. Os três estão com uma competitividade bastante elevada. Os demais candidatos, como Ciro Gomes, João Doria, Simone Tebet, Rodrigo Pacheco, Alessandro Vieira, Leo Péricles, Cabo Daciolo, são pontuados na pesquisa, aparecem na pesquisa, o que é um sinal de alguma visibilidade. Eu sempre digo que ter um ponto percentual numa pesquisa não é um resultado desprezível. Entretanto, você tem o estabelecimento de patamares. O primeiro patamar com Lula, Jair Bolsonaro e Sérgio Moro, um segundo patamar com João Doria e Ciro Gomes e um terceiro patamar com Rodrigo Pacheco, Simone Tebet, Cabo Daciolo e quem mais vier, e virão vários.
Dentro desse cenário, o que me chamou a atenção nas duas pesquisas principais que analisei, da Quest e da Atlas, é a surpreendente adesão à candidatura de Sérgio Moro pelo eleitorado.
Nesse primeiro patamar, em que se encontravam Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro deste março de 2021, já se coloca Sérgio Moro, tendo Sérgio Moro se filiado ao Podemos no início de novembro e seu nome incluído nas pesquisas exatamente na segunda quinzena de novembro.
Sérgio Moro é um candidato que tem um enorme potencial eleitoral. Ele é capaz de mobilizar as forças conservadoras e o imaginário social que levou Jair Bolsonaro a vitória em 2018.
Ele é capaz de mobilizar as teses muito presentes nos sentimentos da população contra a corrupção e, num certo sentido, resgatar o sentimento lavajatista sem lava-jato.
As máquinas políticas vão se opor a Sérgio Moro. Entretanto, Sérgio Moro é um candidato que veio para enfrentar ao mesmo tempo Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro.
Lula está sendo poupado de ataques em relação a seu longo histórico de ativista sindical, partidário como petista e ex-presidente da república.
Por enquanto existe uma “lua de mel”, um silêncio das múltiplas mídias com Lula.
Depois da decisão do ministro Edson Fachin e do STF em relação a sua prisão e a seus processos judiciais na operação Lava Jato, ele tem sido poupado de qualquer ataque.
Entretanto, chamo atenção que a decisão de Edson Fachin e do Supremo Tribunal Federal não o absolveram. Nem o tornaram culpado. Fizeram com que a questão começasse do zero, na primeira instância da Justiça Federal do Distrito Federal.
Portanto, chamo atenção que em uma campanha eleitoral o marketing de desconstrução, o marketing de guerra, o marketing de combate é sempre ativado.
Jair Bolsonaro tem um enorme telhado de vidro para ser atacado em várias áreas, não apenas da questão da pandemia da Covid-19, mas em várias áreas, inclusive com Sérgio Moro atacando Jair Bolsonaro, não o chamando de corrupto, mas flexível em relação à corrupção. Vamos ver desenterrados cadáveres que pairam insepultos sobre os governos Lula, o mensalão, o petrolão, o governo Dilma.
Isso certamente estará no discurso de Sérgio Moro como no discurso de outros candidatos como Cabo Daciolo, Rodrigo Pacheco, João Dória e demais.
Sérgio Moro também será foco da artilharia comunicacional das demais candidaturas.
Sério Moro foi considerado um “juiz parcial” pelo STF e pesam contra ele inúmeras denúncias de irregularidades e ilegalidades ao longo da operação Lava-jato. Isso tudo virá a tona com imensa visibilidade midiática, e não apenas nos guetos identitários e acadêmicos do The Intercept.
Tenho, nesse momento, de 30/11 e primeiros dias de dezembro, que Sérgio Moro se transformou no principal candidato desse primeiro bloco, embora ele esteja em terceiro lugar, porque seu potencial de adesão foi meteórico em um cenário de um Jair Bolsonaro estável, mas em viés de queda, e de um Lula da Silva estável sem ser atacado.
Se Sérgio Moro, de hoje até maio do ano que vem, fizer uma composição, uma chapa que tenha Simone Tebet como vice ou – uma especulação que creio difícil – Joaquim Barbosa como vice, sendo que Barbosa sairia do PSB e iria para outro partido, pois o PSB não apoiará em nenhum cenário Sérgio Moro, teríamos uma chapa de enorme envergadura e competitividade eleitoral.
Que pode fazer com que Sérgio Moro ganhe a preferência para uma das duas vagas no segundo turno.
Sérgio Moro chegando ao segundo turno para enfrentar Jair Bolsonaro ou para enfrentar Luiz Inácio Lula da Silva é uma possibilidade que faz a alegria de muitos eleitores, pois Sérgio Moro tem a efetiva possibilidade de ser eleito presidente da república. Sérgio Moro chegando em uma das vagas do segundo turno enfrentando Bolsonaro ganha a eleição, é quase uma certeza estatística e sociológica.
Sérgio Moro chegando em uma das vagas para enfrentar Luiz Inácio Lula da Silva, hoje ele ao menos empata. Não pode dizer que Lula ganha a eleição de Sérgio Moro, nem que Sérgio Moro ganha de Lula, com a foto das pesquisas de hoje, do agora.
Portanto, nesse artigo eu faço essas lembranças, essas recordações, tendo a pesquisa da Atlas e a pesquisa da Quest como base, para dizer que a candidatura Lula, para ganhar reforço, já pensando no primeiro e no segundo turno de outubro e novembro de 2022, tem que fazer um cálculo milimétrico sobre o vice-presidente que vão escolher.
Nesse cenário, a escolha de Geraldo Alckmin como vice de Lula e Geraldo Alckmin filiado ao Partido Socialista Brasileiro é a alternativa que mais protege Lula dos ataques que virão, ao mesmo tempo que dá a Lula uma estrutura capaz de enfrentar o vetor competitivo de Sérgio Moro.
Não quero considerar Jair Bolsonaro já fora do segundo turno. Mas havia uma facilidade para Jair Bolsonaro chegar ao segundo turno sem a presença de Sérgio Moro na competição.
João Dória não tem condições e densidade eleitoral para enfrentar nem Sérgio Moro, nem Bolsonaro, nem Lula.
João Dória, vindo candidato do PSDB, ficará num patamar bem abaixo, um patamar de insignificância.
Rodrigo Pacheco, se vier candidato, será um candidato para marcar posição, sobretudo no cenário político mineiro, em que se terá uma competição para governador do estado entre o candidato apoiado por Bolsonaro, o atual governador Zema do partido Novo, e o candidato contra Zema, que é Alexandre Kalil.
Rodrigo Pacheco no PSD, mesmo partido de Kalil, pode sinalizar para o segundo turno um apoio à candidatura de Lula, se Lula vier com Geraldo Alckmin.
Geraldo Alckmin passou a ser uma pedra fundamental nesse tabuleiro da competição, na medida em que ele sai do PSDB e deixa a competição do governo de São Paulo aberta para seu leal parceiro Márcio França do PSB .
A ida de Geraldo Alckmin para o PSB abre espaços para um apoio contundente do PSB de Pernambuco a essa chapa, ao mesmo tempo que favorece a disputa eleitoral no estado do Rio de Janeiro, com o apoio de Rodrigo Neves do PDT e Marcelo Freixo do PSB, sem descartar apoio do atual governador, Cláudio Castro, do PL, com seu pragmatismo de múltiplos palanques.
Então, o que quero chamar a atenção nesse momento, em que estamos iniciando o mês de dezembro, é que o jogo de outubro de 2022 foi antecipado com essa entrada de showman de Sérgio Moro no jogo.
Lembro, ressalto, que Sérgio Moro pode caminhar para uma aliança eleitoral com Simone Tebet, que tem um perfil de apoio à operação Lava Jato e é um nome que se destacou no enfrentando à Jair Bolsonaro ao longo de meses de 2019 até hoje em 2021.
Advirto que para que isso aconteça, Simone Tebet terá que trocar o MDB por uma outra sigla partidária. O que não é difícil, o próprio Podemos pode receber Simone Tebet, como pode receber também Joaquim Barbosa que está no PSB, contudo visualizo o partido União Brasil (DEM com PSL) como destino mais seguro e confortável para Simone Tebet e Joaquim Barbosa.
A chapa Sérgio Moro/ Simone Tebet, com Simone Tebet fora do MDB, em especial no União Brasil, é uma chapa forte, com consistência competitiva. Chamo atenção que a candidatura Sérgio Moro vai enfrentar quase todas as máquinas partidárias médias e grandes, todas as forças políticas que hoje são hegemônicas na Câmara dos Deputados e no Senado Federal.
As forças políticas estão apoiando Jair Bolsonaro no parlamento, mas terão uma flexibilidade regional inimaginável em função dos seus interesses estaduais nas eleições para governador e para a única vaga para senador. O fato de ter o apoio dessas forças, como centrão e vários partidos de médio porte e a própria filiação de Jair Bolsonaro no Partido Liberal/PL, não asseguram a Bolsonaro uma estrutura partidária poderosa. O eleitor de Jair Bolsonaro é fidelizado, é do Jair Bolsonaro e pode ajudar a esses partidos nas eleições para deputado estadual, federal, governador e senador, e não o inverso.
Esses partidos estão interessados em dar apoio a um candidato forte mas os seus interesses regionais, estaduais são mais poderosos do que o apoio a um candidato a Presidente da República, que podem ser os três do primeiro patamar a um só tempo, como no caso do PL de Cláudio Castro no estado do Rio de Janeiro.
Os partidos estão jogando um jogo pesado para eleger grandes bancadas de deputados federais e a maioria de senadores das 27 vagas em disputa para, com isso, a partir de primeiro de fevereiro de 2023 entrar em um novo jogo no Governo que se inicia, seja com Luiz Inácio Lula da Silva, seja com Jair Bolsonaro, seja com Sérgio Moro.
Há uma preocupação refinada, sobretudo do União Brasil, que é o novo partido da união do DEM com o PSL, do PL, do PP, PR, do Republicanos, do PT, do PSB, de ter como estratégia fazer grandes bancadas de deputados federais. Preocupação que não está presente no PCdoB, no PSOL, no Rede, no Novo, no PTB, no MDB, no PSDB , no Partido da Mulher Brasileira/Brasil e no Cidadania.
Esses partidos estão com a preocupação de permanecerem vivos, daí a articulação de federações partidárias conforme a nova legislação eleitoral permite. Isso está em andamento como um guarda-chuva de salvação da Rede Sustentabilidade, do PC do B e de outros pequenos partidos. A criação dessas federações partidárias, como o Congresso Nacional definiu, é a tábua de salvação de todos os pequenos que se vêem como pequenos, o que inclui o MDB e o PSDB, que hoje, após 2018, são partidos médios e caminham para serem pequenos, mas se vêem como grandes.
Lembrando que federação partidária não é o mesmo que coligação partidária, assunto para um outro artigo.
Também, para fechar o artigo, quero chamar atenção que Sérgio Moro entrou recentemente e ainda não é vítima de ataques como Bolsonaro é.
Nós teremos ataques contundentes a Sérgio Moro, a sua ação como juiz parcial, manipulador, na operação Lava Jato, sobretudo vindos da campanha de Lula da Silva e de Jair Bolsonaro, mas de várias outras campanhas a presidência da república.
De toda forma vamos ter esses três candidatos do primeiro patamar, no primeiro bloco, Luiz Inácio Lula da Silva, Jair Bolsonaro e Sérgio Moro, que se atacarão mutuamente, ao mesmo tempo que outros candidatos menores farão foco no ataque a essas candidaturas, dependendo do momento eleitoral fotografado pelas pesquisas quantitativas e qualitativas.

 *Sociólogo, cientista político e professor da UFRJ.