Sinal de alerta com luz amarela piscante

" Não se iludam com a ideia de facilidade da vitória em março de 2022, para Luiz Inácio Lula da Silva e Geraldo Alckmin. Não se iludam com isso!", adverte o professor Paulo Baía

Última atualização:

*Paulo Baía

Analisei todas as pesquisas publicadas durante o mês de janeiro, fevereiro e início de março de 2022. Todas as publicadas pelos principais institutos sobre sucessão presidencial e a maneira como a população enxerga o atual presidente e o governo Jair Bolsonaro. O que percebo é que existe uma euforia impedindo uma visão mais avançada de que Bolsonaro está muito bem nas pesquisas. Quando eu digo que está muito bem, não é que ele não esteja em segundo lugar e Lula em primeiro. É que nós estamos já caminhando para a segunda quinzena do mês de março e Bolsonaro mantém uma distância em relação a Lula que, na minha avaliação, não é segura para que a campanha de Lula e os correligionários afirmem que ganharão a eleição no dia 30 de outubro. Vejamos o que está acontecendo.

Bolsonaro tem pela frente um conjunto de possibilidades que Lula não tem. A partir de abril, se efetivamente lançar publicamente sua campanha com Geraldo Alckmin agora depois do dia dois de abril – prazo que encerra a janela partidária – Lula será exposto a uma campanha contra sua candidatura. Coisa que ainda não foi. Todo o foco de negatividade está em Jair Bolsonaro desde 01 de janeiro de 2019, o que em 2020 uniu o desempenho ruim que era percebido pela população e as consequências da pandemia da Covid-19. No entanto, Bolsonaro atravessa 2020, 2021 e mantém fidelidade de um público que oscila entre 15% e 20% do eleitorado.

A ideia da candidatura do Sérgio Moro, que surgiu ali em setembro, outubro de 2021, não consegue deslocar esta fidelidade do voto de Jair Bolsonaro para a candidatura de Moro. E o que estamos enxergando a partir de janeiro, fevereiro e março de 2022 é exatamente o inverso. Aqueles que pensaram em votar em Sérgio Moro começam a migrar de volta para Jair Bolsonaro. Quando alerto que a situação de Jair Bolsonaro é privilegiada no cenário eleitoral as pessoas logo afirmam que Lula está à frente e que ganhará fácil. Por isso estou alertando que a campanha de Lula será uma campanha difícil. Não que ele não tenha favoritismo. Tem e está visível em todas as pesquisas analisadas. Mas as mesmas pesquisas dizem que Bolsonaro é competitivo e pode vir a se tornar ainda mais competitivo. Também tenho chamado atenção para o fato de que a campanha eleitoral de 02 de outubro de 2022 será tensa e difícil, por isso defino essa campanha com a palavra tensão, que vai aumentar a cada dia, das convenções partidárias até o 02 de outubro, dia da votação em primeiro turno. Tensão essa que também vai se intensificar na medida em que as eleições são gerais. O que quer dizer que você terá eleição para deputado estadual, para deputado federal, para uma vaga ao senado e para governadores. E essa tensão ganhará capilaridade com uma campanha anti-Bolsonaro e uma campanha anti-Lula que não ficarão apenas nas agressões verbais que se enxergam nos meios digitais, nem apenas nos desdobramentos das fakenews nos meios digitais. Nós temos um vislumbre de uma campanha em que esta tensão vai acontecer o tempo todo com jogos de denúncias ao Ministério Público Eleitoral, que vão se unir às denúncias via mídias tradicionais que se digitalizaram, tanto contra Jair Bolsonaro quanto contra Luiz Inácio Lula da Silva.

Portanto, o que estou enxergando é um cenário mais ou menos semelhante – eu digo semelhante, não igual – à última eleição na cidade do Rio de Janeiro, para prefeito. Na qual você tinha Eduardo Paes liderando as pesquisas e Marcelo Crivella com resiliência no segundo lugar. A diferença é que a campanha de Eduardo Paes não sofreu os ataques que a campanha de Lula sofrerá. Pelo contrário, a campanha de Eduardo Paes, já no primeiro turno, ganhava a simpatia da campanha de Benedita da Silva, de Marta Rocha, de Renata Souza e dos demais candidatos, exceto Marcelo Crivella. Portanto havia uma facilidade estratégica, por parte de Paes, de consolidar a posição de bipolaridade entre Eduardo Paes e Crivella, na medida em que a onda para ele estava assegurada com Marcelo Crivella no segundo lugar.

Este cenário não é o mesmo para a eleição da presidência da república no dia 02 de outubro. Nós teremos algumas candidaturas que não são fortes, e nem irão se fortalecer até o dia 02 de outubro, e após essa data, caminhando para o segundo turno, haverá uma jornada na qual a pressão contra Lula e contra Bolsonaro é o que vai valer. Esta pressão coloca que o mais eficiente nas estratégias de guerrilha eleitoral poderá ser um vencedor. Assim, eu chamo atenção para que não considerem Jair Bolsonaro um cachorro morto, como se diz na gíria carioca. Bolsonaro está mais vivo do que nunca e suas possibilidades não são apenas de chegar em segundo lugar no dia 02 de outubro. São de efetivamente competir para chegar à frente de Luiz Inácio Lula da Silva no dia 30 de outubro. Já vimos isso em outras eleições – e volto a minha cidade do Rio de Janeiro, no ano de 2000, quando o prefeito Luiz Paulo Conde estava à frente, quase ganha a eleição no primeiro turno, faltando ali 1% para virar 50% + 1 dos votos, e Cesar Maia chega em segundo na faixa de 15% dos votos. E o que aconteceu no segundo turno foi uma inversão, dando a vitória à Cesar Maia, que ganha a eleição com facilidade, deixando para trás Luiz Paulo Conde, que quase ganhou a eleição no primeiro turno.

Eu sempre chamo atenção que uma eleição não é igual a outra, mas uma eleição no passado ensina para uma eleição no presente. Por isso, continuo a afirmar, não descartem a competitividade de Jair Bolsonaro, assim como de seus candidatos ao governo do estado, ao senado, a deputado federal e a deputado estadual, em todo o Brasil. Enfim, as pesquisas estão aí e sugiro que as leiam nos detalhes. Pois uma das coisas que aprendi na minha gloriosa Escola Nacional de Ciências e Estatísticas do IBGE, é nunca seduzir ou torturar os números. Mas sim, ouvi-los com calma, porque sempre têm algo a nos revelar. Assim como não podemos impor pela emoção aquilo que queremos dos números. As pesquisas estão aí apontando resultados. Não se iludam com a ideia de facilidade da vitória em março de 2022, para Luiz Inácio Lula da Silva e Geraldo Alckmin. Não se iludam com isso! A chapa Jair Bolsonaro é uma chapa muito forte, independentemente do vice que Jair Bolsonaro escolha.

*Sociólogo, cientista político e professor da UFRJ