A reinvenção reconfigurada de Anthony Garotinho

Anthony Garotinho
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Anthony Garotinho está magoado, irritado porque o partido União Brasil, a que ele se filiou antes do dia 02 de abril de 2022, sendo um dos principais líderes no estado do Rio de Janeiro, rejeitou sua postulação ao governo do estado do Rio de Janeiro.
Garotinho já esteve magoado várias vezes, desde 1994 até o tempo presente, do agora.
Observei como Anthony Garotinho era bem quisto por grande parte da população do Rio de Janeiro como candidato a governador pelo PDT de Leonel Brizola.
Brizola e a cúpula do PDT rejeitaram o nome de Anthony Garotinho para ser o candidato a governador que substituiria Nilo Batista.
Escolheram outro nome, o do prefeito de Niterói Jorge Roberto da Silveira.
Garotinho não se conformou, mobilizou suas forças militantes intra e extra PDT, foi para a convenção Estadual do PDT como um rebelde contra Leonel Brizola.

Ganhou a convenção do PDT com facilidade, sendo indicado candidato ao governo do Estado do Rio de Janeiro em 1994 contra Marcelo Alencar, recém chegado ao Tucanato do PSDB do poderoso Fernando Henrique Cardoso.
O resultado da eleição de 1994 no primeiro turno foi uma surpresa para Marcelo Alencar, uma estupefação para todas as mídias. As previsões de larga vantagem de Marcelo Alencar desapareceram com o resultado do primeiro turno.
Em todas as boas e honestas pesquisas, Marcelo Alencar tinha uma vantagem bem acima das margens de erro, que eram de 2%. Marcelo Alencar tinha todas as condições de ser o grande candidato, quase o único candidato em 1994, com Fernando Henrique disparando na frente e ganhando já no primeiro turno, com Leonel Brizola em quarto lugar, com Enéas em terceiro com o triplo de votos de Brizola.

Nesse cenário, o jovem “caipira” de Campos dos Goytacazes chega em segundo lugar e obriga o socialista/trabalhista histórico Marcelo Alencar a assumir todas as pautas e a companhia permanente do General Nilton Cruz, um pré-Jair Bolsonaro.
Marcelo ganhou, como se diz no futebol, com um gol que bateu na trave e entrou no final do segundo tempo.
Sempre chamo a atenção, ressalto, para o fato de que as eleições de 1994, as últimas com voto impresso e contagem manual, foram um total festival de fraudes e manipulações de todos os tipos, ao ponto do TRE/RJ anular na integralidade as eleições para deputados estaduais e federais, marcando nova eleição para a ALERJ e a Câmara dos Deputados no mesmo dia do segundo turno de 1994 no estado do Rio de Janeiro.

Com o ardor e o tempero apimentado de Anthony Garotinho, suas bases de apoio entrelaçando todos os municípios do interior do estado com a Baixada Fluminense e com o luxuoso apoio da esquerda acadêmica zona sul, liderada pelo sociólogo Luis Eduardo Soares, montou-se a estrutura para que Anthony Garotinho se preparasse para a eleição de 1998.
Em 1998, Anthony Garotinho foi o absoluto favorito na eleição para governador. Estabelece uma macro coligação estratégica eleitoral com o Partido dos Trabalhadores e em especial com Lula da Silva como fiador, fazendo com que a direção Nacional do Partido de Lula interviesse diretamente do diretório estadual do PT do Rio de Janeiro, que queria outro candidato ao governo, o grande herói da geração 1968, o impoluto Wladimir Palmeira.

O PT Nacional, liderado por Lula da Silva, fez o PT do estado do RJ apoiar Anthony como candidato a governador, coligou-se oficialmente com a deputada e militante negra e comunitária Benedita da Silva como vice-governadora na chapa de Anthony Garotinho.
Garotinho é eleito Governador com uma enorme vantagem, mas não vence César Maia no primeiro turno. No segundo turno ganha com 60% dos votos válidos.

Como governador Anthony Garotinho garantiu a efetiva autonomia financeira do Tribunal de Justiça do estado do Rio de Janeiro.
Garantiu por emenda constitucional na ALERJ, com proposta do Poder Executivo, que todas as custas e taxas judiciais fiquem integralmente no TJ/RJ.
Garotinho governador avança com rapidez em todas as pautas de Leonel Brizola e em todas as pautas do PT, as personaliza e migra do PDT para o Partido Socialista Brasileiro- PSB, e dos socialistas para o PMDB.
Em 2002, ainda no PSB, Garotinho é candidato a presidente da república, chegando em terceiro lugar com uma votação expressiva no estado do Rio de Janeiro e no Brasil, mas não coloca em risco o segundo lugar que foi de José Serra, com Lula no primeiro lugar.

Lula era o principal candidato da eleição em 2002, mas a campanha de Garotinho elege Rosinha Garotinho governadora no primeiro turno, um ineditismo no Estado do Rio de Janeiro.
Os governos Lula de 2003 até o dia 31de dezembro de 2006 foram de oposição e boicote à família Garotinho e, por via de consequência, de boicote ao estado do Rio de Janeiro. Não há como negar isso, foi um fato durkheimiano.
A família Garotinho apoiou de maneira decisiva a eleição de Sérgio Cabral em 2006. Cabral foi o candidato de Anthony Garotinho e Rosinha Garotinho.
O apoio da família Garotinho à chapa Sérgio Cabral/Fernando Pezão foi fundamental e constituinte para vencer a potente chapa liberada por Denise Frossard e Eider Dantas.

No dia 30 de outubro, um dia depois do segundo turno, Sérgio Cabral rompe com a família Garotinho e anuncia sua adesão ao governo Lula da Silva e um governo de coligação com o PT no estado do Rio de Janeiro.
Essa movimentação de Sérgio Cabral e Lula da Silva empurram Anthony Garotinho para um isolamento político concreto.
Anthony Garotinho é passional e ao mesmo tempo estrategista.
Garotinho estabeleceu uma guerra aberta e ao mesmo tempo secreta contra Sérgio Cabral, Jorge Picciani, Lula e Dilma Rousseff.
Essa guerra em sua face secreta fez com que o Ministério Público Federal investigasse Sérgio Cabral, Fernando Pezão, Jorge Picciani e a própria família Garotinho.

É curioso que a movimentação de Garotinho contra Sérgio Cabral atraiu contra a família Garotinho a ira de muitos segmentos sociais da cidade do Rio de Janeiro e da cidade de Niterói contra Anthony Garotinho.
A ira, a antipatia e a má vontade do Ministério Público Estadual e do Ministério Público Federal que atua no estado do Rio de Janeiro
Atraiu, igualmente, a antipatia e uma certa ojeriza do Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro.
No estado do RJ o Tribunal Regional Federal também é indiferente ou tem uma certa antipatia pela família Garotinho.
Não vou nesse artigo afirmar que Anthony Garotinho é um santo, é inocente, que não tem culpa ou não tem responsabilidades. O que quero dizer é que existe má vontade, existe um pré-julgamento contra a família Garotinho. Anthony Garotinho chegou a ser preso.

O fato é que a família Garotinho, o “Clã” Garotinho, se constituiu em uma força política autônoma e potente no estado do Rio de Janeiro, com influência real, com 15% de votos dos 12 milhões de eleitores fluminenses e cariocas, votos fidelizados em Garotinho, ao seu filho, atual prefeito de Campos dos Goytacazes e a sua filha, a deputada federal que agora é pré-candidata ao senado federal, Clarissa Garotinho.
Esses eleitores não estão na zona sul nem na Barra da Tijuca da cidade do Rio de Janeiro, também não estão nas áreas nobres dos demais 90 municípios do Estado do Rio de Janeiro.
Estão nas favelas e áreas pobres de Niterói e nas favelas e áreas pobres do Rio de Janeiro, estão espalhados nos 92 municípios do RJ.
Finalizo afirmando que Anthony Garotinho, o clã Garotinho, é resiliente, esperneia e não foge de nenhuma luta, briga ou intriga.
Anthony Garotinho dá indícios de que apoiará Rodrigo Neves do PDT para o governo do estado, contra Cláudio Castro e Marcelo Freixo a um só tempo e ação.

* Sociólogo, cientista político, técnico em estatística e professor da UFRJ.