Lula, Bolsonaro e o desassombro de Simobe Tebet

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Paulo Baía*

A experiência eleitoral brasileira mostra, para alegria de uns e tristeza de outros, que o eleitor escolhe o nome, escolhe a pessoa. Os partidos políticos, a ciência política, a sociologia, as ciências jurídicas, a filosofia, vêm há muitos anos tentando fazer uma pedagogia política, uma educação cívica eleitoral, no sentido de valorizar o programa político, ideológico e ético/moral dos candidatos, as ações pretéritas e história de vida dos candidatos e candidatas, o que eles pretendem como legisladores e fiscais da administração pública ou como chefes do poder executivo, do município à união federal.

Entretanto, essa não é nossa realidade atual e histórica.

A realidade política e eleitoral brasileira em todo o território nacional, de maneira quase absoluta, coloca os programas políticos de gestão no executivo e de legislatura nos parlamentos de maneira secundária, terciária, inexpressiva.

O programa até é sugerido e/ou avaliado por macro forças empresariais, por conglomerados de mídias e imprensa e por várias instituições civis, corporativas, comunitárias, trabalhistas, sindicais, étnicas, ambientais, identitárias, temáticas.

Chegamos ao cúmulo de os candidatos a prefeito, a governador e a presidente da República terem que obrigatoriamente registrar seus programas na Justiça eleitoral como vetor de “conscientização” e educação política do eleitorado.
É um ritual burocrático jurídico sem impacto efetivo nas escolhas e decisões de homens e mulheres acima dos 16 anos de idade.

Isso faz com que a experiência eleitoral brasileira seja diferente da experiência eleitoral de alguns outros países em que o programa partidário, a doutrina política, a ideologia são muito importantes, são constituintes da decisão do eleitor e eleitora.

Em vários países se tem uma combinação entre o programa político, ideológico e valores morais partidários e aqueles que vão vocalizá-los nas variadas candidaturas.

Tem-se uma combinação em que o nome do candidato/a, a figura do candidato/a é indissociável do programa partidário ou da coligação, é submisso ao programa.

Vimos isso recentemente na eleição do final de 2020 nos Estados Unidos, em que concorreram duas personalidades conhecidas historicamente da população dos EUA, ao mesmo tempo em que essas personalidades vocalizavam programas políticos diferentes e conflitantes.

O enfrentamento entre Donald Trump e Joe Biden era o embate de duas concepções de vida e de mundo para os norte-americanos e habitantes dos EUA.

Essa experiência também se observou recentemente em Portugal, França, Itália, Israel.

Enfim, temos experiências internacionais que mostram que o programa político é mais importante que o candidato.

E mais, é o programa que define o candidato/a, o programa do partido ou da coligação leva a procurar um perfil de candidato que melhor o represente, e não o contrário.

Nossas experiências históricas e sociológicas de 1982, nas primeiras eleições para governadores dos estados após o retorno das eleições diretas para o governo dos Estados Federados, e de 1989 para presidente da República, mostram exatamente o inverso, que a figura do candidato, a pessoa do candidato, a imagem individual do candidato é que define o programa eleitoral e a partir dela imagina um programa eleitoral.

Jamais esqueço da afirmação de Leonel Brizola em 1982, de que o “programa de governo estava na cabeça”, não eram os papeluchos encadernados do Miro Teixeira, o “filhote de chaguista”. E insuflava o eleitorado com “Brizola na cabeça”.

Não esqueço também do mesmo Leonel Brizola, respondendo a Mário Covas quando cobrado por não ter um programa de governo escrito e publicado, “vou encomendar um por reembolso postal ao Hélio Jaguaribe”. Nem de Fernando Collor de Melo, que era o “caçador de marajás”.

Parece uma heresia falar isso, mas analiso eleições há muitos anos, desde 1974, e é a figura do candidato que conta, que fala diretamente ao eleitor, à sua emoção, ao seu desejo, ao seu humor, ao seu afeto. Não é o programa político.

Temos vários exemplos para demostrar que a diferença de programa político, partidário e/ou ideológico não define a escolha do eleitor/a. Muitas vezes os eleitores escolhem mesmo um candidato que vai radicalmente contra as suas formas de pensar.

Vimos isso em várias eleições, inclusive na última para presidente da República em 2018, em que a maioria das pessoas escolheu votar no primeiro turno em um nome, não em uma proposta política de governo, sem falar nas escolhas eleitorais do segundo turno para presidente e governadores, quando as experiências pessoais sempre levam a uma escolha mais difícil, mais cansada, mais estressante, no sentido em que o eleitor/a já fez uma escolha prioritária no primeiro turno.

Nas eleições de 2018 tivemos, tanto para os governadores dos estados como para o presidente da República, escolhas feitas a partir exclusivamente da figura do candidato, da pessoa do candidato.

Então, insisto nessa avaliação, nesse momento político de agosto de 2021: analisando a última pesquisa da Genial Investimentos em parceria com a Quaest consultoria e pesquisa, publicada no dia 4 de agosto, que traz uma avaliação refinada e bastante sofisticada, coordenada pelo professor e cientista político da FGV e da UFRJ Jairo Nicolau, vemos uma perspectiva de consolidação no sentimento, na pré-escolha de eleitores por Jair Bolsonaro, sobretudo naqueles que têm maior escolaridade, e por Luiz Inácio Lula da Silva por aqueles de menor escolaridade. Isso em todas as regiões do Brasil. Essa pré-escolha do eleitor vai matando previamente escolhas da chamada Terceira Via, ou outros nomes, para enfrentar tanto Jair Bolsonaro como Luiz Inácio Lula da Silva.

Aí é que eu volto a essa questão do nome como definidor da escolha ou, no caso do momento, da pré-escolha, da figura, do personagem que se apresenta como candidato a presidente da República ou governador.

Quais são os nomes que estão no visor da população?


Que estão com a “cara a tapa” ou como na canção popular “com a bunda exposta na janela”, para que o eleitor pense, reflita, ame ou odeie?

Temos: Ciro Gomes, Luiz Henrique Mandetta, João Doria, Eduardo Leite. Luciano Huck e João Amoedo já tiraram o time de campo, não são mais incluídos nas sondagens eleitorais.

As pesquisas e sondagens eleitorais são um indicador importante, vão mostrando que a ideia desse terceiro, quarto ou quinto nome vai desaparecendo com rapidez.

E aí eu lanço uma provocação aos adeptos e aos desejosos de uma terceira, quarta, quinta, sexta via.

Eles vêm discutindo a elaboração de um programa, de uma plataforma política e eleitoral. A partir deste programa, dessa plataforma, escolher um nome. Se fosse na Dinamarca, esse seria o razoável e a prática.

É evidente que no cenário político atual do Brasil e de nossa tradição eleitoral, isso não tem a menor importância para a decisão do eleitor/a, que já estará enredado por uma pré-escolha entre Jair Bolsonaro e Lula da Silva, conveniente e oportuna para os dois candidatos.

Então a provocação que eu faço é a seguinte: já que os nomes apresentados até agora, como Ciro Gomes, Luiz Henrique Mandetta, João Doria, Eduardo Leite, não se viabilizam na escolha do eleitor, que pelo contrário vão perdendo densidade e vão deixando de ser escolha, enquanto as pessoas vão migrando para Jair Bolsonaro ou para Luiz Inácio Lula da Silva, que se lancem outros nomes para a clivagem popular.

O eleitor/a quer figuras que tenham coragem de apresentar seus nomes como pré-candidatos ou pré-candidatas.

Ter o desassombro de Fernando Collor de Melo em 1989, de Eduardo Campos e Marina Silva em 2014 e Jair Bolsonaro em 2018.

É nesse sentido que venho avaliando um nome periférico, o da senadora Simone Tebet, que pipocou em algumas enquetes como escolha espontânea, em função de sua visibilidade momentânea nas mídias tradicionais e redes sociais por sua performance corajosa na CPI da Covid-19. Seu nome pode impactar as pré-escolhas do eleitorado, já que estamos no meio de agosto para setembro e temos até o final de 2021 e o início de 2022 para definir, permitir, que o eleitor tenha mais opções de personagens, de um elenco de pretendentes, de quem é quem nesse processo de pré-campanha, quem é quem pelo nome, pela imagem.

A senadora Simone Tebet, que chegou a aparecer em algumas pesquisas, não tem apresentado o desassombro necessário para uma competidora; me parece envergonhada de entrar em cena nesse teatro, não se apresenta como candidata a presidente da República com a mesma coragem da senadora na CPI.

Se Simone Tebet apresentar o seu nome como pré-candidata à presidência da República para as mídias, nas redes sociais e sair rodando o Brasil com a “cara a tapa”, pode ser que ela venha a surpreender.

Detectei o nome da senadora Simone Tebet não ao acaso, não sorteei a senadora de uma caixinha de surpresas ou por amizade. O nome da senadora Simone Tebet ganhou visibilidade em função dos trabalhos da CPI da Pandemia.

Seu nome foi ventilado espontaneamente por vários entrevistados em pesquisas de diversos institutos.

Entretanto, Simone Tebet não se define como candidata a presidente da República.

Quero crer que a Senadora esteja presa nas teias complicadas, adesistas e de vocação subserviente do MDB.

Um partido paquidérmico, complicado, com labirintos, com competitividade que se assemelha ao futebol atual do Cruzeiro de Minas Gerais ou ao Botafogo do Rio de Janeiro: vivem das glórias de um passado distante.

A própria escolha de Henrique Meirelles como candidato próprio em 2018 mostrava esse papel de coadjuvante subserviente, na medida em que Henrique Meirelles foi lançado candidato para não atrapalhar as alianças regionais e municipais que apoiavam Fernando Haddad do Nordeste e Jair Bolsonaro nas região Sudeste, Sul,Centro-Oeste e Norte.

Percebo que se Simone Tebet apresentar seu nome direto à sociedade, jogar a partir de falas contundentes, como tem feito no Senado Federal, colocar seu nome para o embate com a imprensa, nas janelas e frestas das redes sociais, pode começar a ter visibilidade como candidata à presidência da República, não apenas como a “moça corajosa de Mato Grosso do Sul” nas tribunas do parlamento.

Se o nome de Simone Tebet pipocar na faixa de 5% a 7% de intenções de votos nas muitas enquetes até março de 2022, ela terá oportunidade de alcançar uma boa performance na jornada eleitoral até outubro de 2022.

A partir daí, as articulações, as negociações, as coligações, os apoios vão acontecer.

É o que está ocorrendo com Lula e Jair Bolsonaro nesse exato momento.

Jair Bolsonaro mantém seu nicho raiz, mas negocia adesões mais amplas, da mesma maneira que Lula vem negociando adesões a sua candidatura.

A visibilidade eleitoral de Jair Bolsonaro e de Luiz Inácio Lula da Silva trazem como consequência, como efeito, a elaboração de um programa ajustado às alianças, que será mantido na sombra para facilitar a exposição dos nomes, da personas.

Creio que os nomes de Ciro Gomes, Luiz Henrique Mandetta, João Doria e Eduardo Leite não são atraentes para a população de eleitores e eleitoras, estão desde já descartados. Jair Bolsonaro e Lula ocuparam esse espaço.

Entretanto, existe uma brecha que pode ser preenchida por Simone Tebet ou por um outro nome que venha a surgir, descartando de pronto nomes tradicionais como o do senador Álvaro Dias, do Paraná, que já foi candidato e não tem adesão.

Nós não temos no nosso plantel de nomes políticos, hoje, alguém com mais possibilidades que Simone Tebet.


Eu não digo que a senadora Simone Tebet vai se destacar, eu digo que existe possibilidade efetiva de ela vir a ganhar densidade na disputa das pré-candidaturas de agosto de 2021 até março de 2022.

Vejo algumas dificuldades na senadora, não por ser de Mato Grosso do Sul: ela tem uma boa uma boa passagem por São Paulo e visibilidade nacional com a CPI da pandemia, e dificuldades que ações de marketing e propaganda ajudam a dissipar.

Ela já é um nome nacional, tem que se tornar uma figura falada, corriqueira, citada no dia a dia em todo o território nacional.

A dificuldade maior de Simone Tebet, e essa é uma dificuldade concreta, estrutural, é que Simone Tebet tenha que acenar já que vai se desvencilhar do MDB, que vai para uma outra legenda, coisa que ela pode fazer a qualquer momento, pois é senadora, ou pode fazer até abril de 2022.

A estratégia que eu tenho escutado aqui e ali vinda de Brasília e São Paulo é de que a senadora espera ser convocada para essa missão, o que é um equívoco dela.

Ela deve ter coragem política de apresentar seu nome imediatamente por sua conta e risco, com desassombro visionário e desejoso, pois não haverá chamamento para missão nenhuma, em especial vindo do MDB.

A própria dinâmica do MDB mostra que o partido já está se colocando com Lula, com Bolsonaro e pode até tentar oferecer o nome de vice numa outra candidatura, para não atrapalhar Lula e/ou Jair Bolsonaro, como fez com a candidatura de Henrique Meirelles em 2018.

       *Paulo Baía é sociólogo, cientista político e professor da UFRJ.